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Brasil

Vamos precisar de um novo normal

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Esqueça tudo que aprendeu sobre como chegar até do outro lado daquela rua

Durante o UOL Debate ontem (2), o médico e escritor Drauzio Varella disse uma coisa que me ficou dando voltas – meus pensamentos também estão em quarentena – em minha cabeça: “esquece a vida normal, ela não vai existir por muito tempo”.

Não é todo dia que alguém, que eu julgo ter um olhar absolutamente interessante sobre o mundo, me diz para esquecer a vida que venho cultivando por anos, rotina em cima de rotina. Escutei algo assim do que ele disse: esqueça tudo que aprendeu sobre como chegar até do outro lado daquela rua. Talvez aquela rua não seja mais o caminho, de agora em diante.

Todos os dias, por conta do meu trabalho hoje, escuto dezenas de pessoas compartilhando como estão passando por este momento tão confuso e doloroso para um tanto de todas nós.

Algo microscópico, um vírus, botou meio mundo numa espécie de castigo no cantinho da sala, quase que para repensarmos a forma como temos andado pela vida.

Um amigo, que sempre foi engolido pelo trabalho que diz amar, descobriu que existe vida para além das reuniões infinitas às 8 horas da noite de uma sexta-feira, numa véspera de feriado prolongado.

Um amigo, que sempre foi engolido pelo trabalho que diz amar, descobriu que existe vida para além das reuniões infinitas às 8 horas da noite de uma sexta-feira, numa véspera de feriado prolongado.

Uma amiga, que sempre compartilhou dessa sensação de que as ruas são cheias demais quando a gente só quer existir e pouco saía, já sinalizou que quando tudo isso passar ela vai virar duas noites numa festa tropicália, sem voltar para casa.

Uma parte das pessoas com muito dinheiro está mexendo em suas fortunas para fazer acontecer o básico da vida nas margens das grandes cidades. A outra parte continua achando que dinheiro é capa de invisibilidade contra tudo e qualquer coisa, mas delas eu nunca esperei nada, mesmo.

A gente foi convocado a pensar as desigualdades de uma vez por todas.

Uma multidão de nós tem buscado refúgio nas lives infinitas do Instagram em que desfilam, todos os dias, dezenas de apresentações, vindas de todos os cantos. Já escutei amigo que achava a arte uma grande bobagem, perda de tempo, dizer que a salvação de sua terça-feira de garoa foi a amiga que nunca imaginou tocar ukulele.

A outra multidão de nós se chama Yane, Jota, Ivana, Gizele, Tim, e diariamente pela manhã andam pelas ruas das muitas quebradas – já escutou este termo? – dizendo que tudo isso vai passar, e vai. Mas que até lá ninguém estará sozinho, como nunca esteve. E que precisamos lavar as mãos, de verdade. E que precisamos cobrar do Estado que cumpra com suas obrigações, de verdade.

Uma grande parte de nós não precisa estar num prédio longe de casa, superlotando o transporte público, longe do cachorro de estimação e da família, para trabalhar como sempre trabalhou, entregando os resultados que sempre entregou: home office, o nome.

Tem isso ainda: conversar pelo Whatsapp é bom, mas nada substitui os bancos da Praça do Campo Limpo e a gente em roda, rindo de qualquer coisa da qual estamos rindo desde 2001, sem parar: menos importância à tecnologia, mais importância aos encontros físicos.

Que nunca mais paremos de enxergar e nos preocupar, verdadeiramente, como agora: com nossos irmãos e irmãs em situação de rua; com quem faz com que todos estes resíduos que produzimos desaparecem como mágica, mas nunca foi, os coletores; com as famílias e mais famílias morando em lugares tão perigosos para a saúde, sem opção de outros, com um subemprego que mal dá para alimentar as filhas: morar dignamente é direito humano; com os entregadores e entregadoras das dezenas de serviços de comida e tudo mais, e se eles ficarem doentes hoje, o que acontece com suas vidas, de suas famílias?

Tem gente que precisou de uma pandemia mundial para entender que o portão do prédio em que mora nunca abriu sozinho.

E que a senhora que atravessa a cidade para limpar sua casa tem uma família, e precisa chegar razoavelmente cedo para cultivar seus afetos.

O coronavírus fez com que, minimamente, um punhado de gente, enfim, desse nome às pessoas e aos sentimentos que nos rodeiam: o porteiro virou José, que é de Minas Gerais; flamenguista. Isso que eu ando sentindo por não estar com ela aos fins de tarde, na fila do cinema, tem o nome de saudade.

Isso não é uma romantização do nosso tempo, de tudo que estamos vivendo. É grave, é doloroso Para alguns de nós, é ainda mais grave, é ainda mais doloroso. Conversando com tanta gente, todos os dias, eu sinto no corpo, quando vou dormir, um cansaço emocional de tantas dores diferentes que fui escutando ao longo do dia. A gente malhou o corpo sem parar, mas não criou musculatura emocional para momentos como este; que aprendamos.

Mas ontem eu pensei que se sairmos de tudo isso, se chegarmos ao outro lado dessa pandemia, exatamente como entramos nela – autocentrados, tecnicistas, pouco empáticos e muito mais -, a gente terá perdido uma grande chance de sermos versões melhores de nós mesmos. Teremos perdido uma grande chance de criarmos um novo normal.

Um novo normal em que a gente não naturalize tanta coisa que só virou paisagem pelos nossos dias. Mas que no fundo, no fundo, são desumanidades em pílulas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Grajau News

Fonte: UOL

Texto de Tony Marlon

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