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Um dicionário construído sob o olhar do leitor – 20/07/2022 – Thaís Nicoleti

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Um dicionário construído sob o olhar do leitor - 20/07/2022 - Thaís Nicoleti

Há alguns anos, por ocasião da entrada em vigor do Novo Acordo Ortográfico, a página do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), da Academia Brasileira de Letras, ganhava grande número de buscas. Era a única fonte realmente segura para dirimir eventuais dúvidas sobre a nova grafia das palavras. De lá para cá, o acervo só fez aumentar: no ano passado, por ocasião do lançamento da sexta edição do Volp, mais de mil palavras novas foram incorporadas à plataforma, que hoje conta com mais de 382 mil termos.

O Setor de Lexicologia e Lexicografia da ABL faz um trabalho constante de pesquisa do uso da língua e, atualmente, desenvolve vários projetos além, é claro, do próprio Volp, que recebe atualizações constantes: a seção Novas Palavras, o serviço ABL Responde e o Dicionário da Língua Portuguesa (DLP-ABL), sendo este um projeto inovador.

Novas Palavras

A seção Novas Palavras, que teve início em outubro de 2020, traz a cada semana (no site e também nas redes sociais) uma palavra ou expressão que passou a ter uso corrente na língua portuguesa. Segundo a lexicógrafa Shahira Mahmud, chefe do setor, as palavras que ganham registro podem ser neologismos, empréstimos linguísticos ou mesmo algum vocábulo que, embora já exista há algum tempo na língua, tem sido usado com mais frequência ou com um novo sentido nos dias de hoje.

Diferentemente do Volp, que vai sendo enriquecido com os novos termos, a seção Novas Palavras acrescenta definições enciclopédicas dessas palavras. O leitor que buscar termos como “afrofuturismo” ou “aporofobia”, por exemplo, além de saber a sua correta grafia, terá à disposição verbetes explicativos com bibliografia acadêmica e exemplos de emprego.

Entre o público não especializado, paira a dúvida sobre os critérios que uma palavra precisa satisfazer para ser registrada em dicionário. Shahira Mahmud explica os quatro passos: “Primeiro, verificar se o termo foi criado segundo os princípios que regem a formação de palavras antigas e modernas no nosso léxico; segundo, se a criação traduz com eficiência a ideia que quis transmitir quem a empregou; terceiro, se, para traduzir a mesma ideia, o idioma não dispõe de palavras antigas e mais expressivas; quarto, se o fato de não existir um termo no dicionário é prova suficiente de que não deva ser criado ou de que constitui um erro o seu emprego”.

A coleta de candidatos à dicionarização é fruto de trabalho constante da reduzida e aguerrida equipe de Shahira, que conta com a também lexicógrafa Feiga Fiszon e com a analista de conteúdo lexicográfico Cristiane Cardoso. Elas mostram que as palavras novas estão em todo lugar.

“Quanto mais lemos e nos inteiramos dos acontecimentos e problemas da sociedade, maior a possibilidade de encontrarmos vocábulos novos – eles estão nos textos acadêmicos, científicos, nos livros recém-lançados, jornais, revistas, televisão, nas redes sociais, na conversa informal, em toda forma de expressão e comunicação dos falantes”, explica Shahira.

Feiga Fiszon acrescenta que “os nomes técnicos, as palavras sugeridas por cientistas, especialistas, ou aquelas criadas pelo povo, todas têm igualmente possibilidade de registro, já que as novas palavras ou expressões de uma língua surgem da necessidade que temos de nomear algo que passou a fazer parte da nossa realidade”.

As lexicógrafas ressaltam que outros aspectos como a frequência de uso da palavra, a sua presença em textos oficiais, jornalísticos ou acadêmicos e a relevância da palavra para os assuntos discutidos nas universidades e na vida social e profissional das pessoas também são levados em consideração na seleção dos vocábulos e expressões.

Shahira Mahmud conta que o projeto “ABL Responde”, que existe desde 2007 e atende todas as regiões do Brasil, já canalizou ao setor de Lexicologia e Lexicografia muitas sugestões de palavras, que foram devidamente avaliadas pela equipe responsável, orientada pelo Prof. Evanildo Bechara, presidente da Comissão de Lexicologia e Lexicografia da ABL.

Obra em construção

O mais recente projeto do setor, iniciado em 2021, é o Dicionário da Língua Portuguesa (DLP), que está disponível exclusivamente no site da ABL, uma vez que sua proposta é que o público acompanhe o passo a passo da construção da obra, em constante atualização. “A obra materializa um dos principais intentos da Instituição, ao oferecer aos falantes de língua portuguesa conteúdo lexicográfico com acesso amplo e gratuito, de maneira transparente, interativa e contínua”, afirma Feiga Fiszon.

Na prática, o projeto pioneiro do DLP, o de ser uma obra construída sob o olhar dos usuários, se fará com a inclusão, a cada dia, de uma nova seleção de verbetes, seguidos de definição linguística (não de sinônimos), com linguagem precisa e direta e uma série de abonações (exemplos de uso de texto literário, jornalístico ou científico), que esclarecem o sentido do termo no contexto de emprego.

​Shahira explica que o DLP “refletirá o encontro da língua com a literatura, em vasta abrangência lexical, a par da evolução do idioma”. As informações gramaticais (regência, flexão etc.), assim como os estritos critérios lexicográficos estabelecidos para a obra, seguem a orientação do Prof. Evanildo Bechara. “As definições partem de corpora formados pelas obras de nossos escritores e dos mais diversos textos produzidos pela riqueza vocabular dos falantes”, acrescenta Feiga. Esse projeto, de grande envergadura, conta com a colaboração de uma equipe externa de experientes lexicógrafos.

A equipe promete que, mais adiante, o DLP contará com a participação dos usuários, que poderão sugerir palavras e significados, a serem avaliados pela equipe de lexicógrafos. Assim, sempre com critério científico, a obra pretende acolher diferentes matizes linguísticos e atualizações nas diversas áreas do conhecimento. “Queremos cobrir as variantes semânticas conforme o melhor emprego do idioma em cada região do país”, explica Shahira Mahmud. E mais: em breve as entradas do DLP também estarão disponíveis na língua brasileira de sinais (Libras).

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