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Um desafio para o clima: a China queima mais carvão – 24/11/2022 – Ambiente

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Um desafio para o clima: a China queima mais carvão - 24/11/2022 - Ambiente

A China está pronta para tirar partido da urgência global no combate às mudanças climáticas: é a maior fabricante e usuária global de painéis solares e turbinas eólicas, lidera o mundo na produção de energia a partir de barragens hidrelétricas e está construindo mais usinas nucleares do que qualquer outro país.

Mas também queima mais carvão do que o resto do mundo em conjunto e acelerou a mineração e a construção de usinas a carvão, elevando as emissões de gases de efeito estufa relacionados à energia do país em quase 6% no ano passado, o ritmo mais rápido em uma década. E é provável que o vício da China em carvão dure anos, ou mesmo décadas.

A China precisa equilibrar a limitação das emissões de gases de efeito estufa com suas preocupações em garantir a própria energia. O país há muito tempo vê o carvão, abundante em seu território, como a melhor maneira de evitar se tornar excessivamente dependente da energia de outros países e permanecer suscetível a condições climáticas imprevisíveis, como as secas, que reduzem a produção das hidrelétricas.

Em nenhum país os riscos climáticos são maiores do que na China. Principalmente por causa de seu uso de carvão, emite quase um terço de todos os gases de efeito estufa produzidos pelo homem —mais do que os Estados Unidos, a Europa e o Japão juntos. “Não há solução para a mudança climática sem reduzir a combustão de carvão da China”, disse David Sandalow, alto funcionário de energia dos governos Obama e Clinton.

A grande questão está em saber se a China usará suas novas usinas a carvão 24 horas por dia ou só ocasionalmente, como um backup para a energia renovável. Apenas seu consumo de carvão produz mais emissões de carbono anualmente do que o total de emissões relacionadas à energia dos EUA em um ano.

O esforço chinês para construir mais usinas a carvão, a um custo de até US$ 1 bilhão cada, alarmou as autoridades ocidentais. John Kerry, enviado do clima do governo Biden, alertou no ano passado que “a adição de mais de 200 gigawatts de carvão nos últimos cinco anos, e agora de outros 200 ou mais entrando em operação na fase de planejamento —caso isso se concretize—, tudo isso de fato vai desfazer a capacidade do resto do mundo de atingir um limite de 1,5º C no aumento da temperatura global“.

Xi Jinping, o principal líder da China, afirmou em um relatório de outubro ao congresso nacional do Partido Comunista que o país avançaria mais rapidamente para desenvolver a energia renovável e a nuclear. Mas também enfatizou a segurança energética —sinalizando fortemente uma dependência contínua do carvão, do qual a China tem mais reservas do que qualquer outro país. “O carvão vai ser usado de maneira mais limpa e eficiente”, garantiu Xi, sem mencionar a redução do consumo.

A possibilidade de a China depender fortemente de energia renovável é visível dentro e ao redor de Hanhaozhuang, vila na fronteira entre Pequim e a província de Hebei, ao norte. É uma aldeia onde currais de ovelhas com paredes de tijolos se alternam com cercas de arame onde crescem cabaças.

Logo depois dos currais, há uma enorme extensão de painéis solares montados em estruturas de aço para mantê-los em direção ao sol, inclinados no ângulo sul correto. A fazenda de energia solar cobre cinco vezes a área da aldeia. Duas filas de macieiras crescem entre cada fila de painéis solares, fornecendo uma colheita comercial aos moradores.

Cerca de 20 quilômetros a sudoeste, em um pântano ao longo das margens de um reservatório, há uma longa fila de turbinas eólicas que transformam os fortes ventos que sopram do deserto de Gobi em eletricidade para Pequim. E, mais perto da cidade, as concessionárias construíram grandes usinas a gás. Essas medidas levaram o uso de carvão de Pequim a uma queda de 95% na década até 2020, o ano mais recente com dados disponíveis. A última mina de carvão da região fechou há três anos.

Mas Pequim não desistiu do carvão, no caso de o clima ficar muito quente ou muito frio, aumentando a demanda de eletricidade, ou se a energia renovável não for suficiente. A enorme usina termelétrica de Huaneng, no sudeste da cidade, está pronta para acionar quatro unidades a carvão, todas elas mais altas que um prédio de dez andares.

Outras regiões estão muito mais longe de desistir do carvão. Na província de Shanxi, o coração do carvão na China, as empresas no ano passado aumentaram drasticamente o ritmo em que abriam novas minas ou as expandiam. Shanxi também está queimando grandes quantidades de carvão para alimentar fábricas de cimento, siderúrgicas e outras indústrias, e para gerar eletricidade; o consumo de carvão cresceu 80% na década até 2020. A energia eólica e a solar também estão crescendo lá, mas seus níveis de produção eram muito mais baixos.

O gás natural —que, quando queimado, libera cerca de metade do dióxido de carbono do carvão— oferece uma possível ponte entre o uso do minério e a energia renovável para a China. A quantidade de gás natural que o país promove em substituição ao carvão terá consequências em longo prazo não apenas para sua economia, mas também para seu relacionamento com a Rússia.

As importações de gás proveniente da Rússia estão aumentando depressa, a partir de gasodutos e navios de gás natural liquefeito, apesar da invasão russa da Ucrânia. Este ano, a China quase dobrou suas importações através de um gasoduto do leste da Sibéria. Mas, globalmente, o gás russo representa apenas um por cento do consumo de energia chinês e menos de um décimo de seu consumo de gás. Não está claro o volume adicional que a China está preparada para comprar de seu vizinho do norte, e está sujeito a intensa especulação entre autoridades ocidentais e analistas de energia.

A China está concentrada por enquanto no carvão. A estratégia da região de Pequim de manter uma gigantesca usina a carvão para atender a breves picos de demanda desafia a sabedoria convencional na indústria global de energia. O gás natural tem sido visto como uma escolha melhor para atender a esses picos, porque as turbinas a gás podem aumentar a produção de eletricidade em minutos ou mesmo em segundos. As usinas a carvão podem levar alguns dias para serem acionadas se não estiverem em funcionamento.

A China agora está investindo pesadamente na readequação de usinas a carvão com o objetivo de melhorá-las para atender às necessidades de pico de eletricidade, de acordo com Zhou Xizhou, especialista de longa data em energia chinesa que agora está na S&P Global. Manter as usinas a carvão funcionando lentamente —com 30% a 50% da capacidade, como é o caso em algumas cidades chinesas— permite que sejam levadas depressa à capacidade total quando há um déficit de energia renovável.

O perigo para o clima é que as concessionárias de energia elétrica podem não estar satisfeitas com o funcionamento de usinas a carvão durante apenas parte do tempo, frisou Sandalow, ex-autoridade de energia dos EUA: “Depois que forem construídas, vai haver pressão para usá-las mais?”

Pequim começou a permitir que as concessionárias de energia elétrica cobrassem muito mais por quilowatt-hora pela eletricidade gerada pelo carvão durante a escassez de energia. O custo da eletricidade disparou em agosto, quando uma seca no sudoeste da China causou a diminuição da geração de energia hidrelétrica e uma onda de apagões. “Isso leva muitas empresas a considerar o uso de painéis solares no telhado de sua fábrica”, comentou Frank Haugwitz, consultor chinês de longa data do setor de energia solar. A China está agora instalando mais painéis solares a cada ano do que o resto do mundo combinado, com a capacidade de geração de eletricidade de novas instalações dobrando novamente este ano.

Kevin Tu, membro do Centro de Política Energética Global da Universidade Columbia, sediado em Pequim, garantiu que o governo chinês está profundamente comprometido em reduzir a poluição atmosférica e outras contaminações tóxicas, bem como em cumprir as metas climáticas. Mas as autoridades de Pequim precisarão vigiar de perto as autoridades locais para garantir que estas sigam as políticas nacionais, afirmou Tu: “No âmbito do governo local, existem diferentes grupos de interesse que tentam aumentar as emissões em nível provincial. Isso geraria maior crescimento econômico no curto prazo, infelizmente à custa do meio ambiente no longo prazo.”

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