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Suicídio mostrou importância de série sobre saúde mental – 20/09/2022 – Cotidiano

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Suicídio mostrou importância de série sobre saúde mental - 20/09/2022 - Cotidiano

Se você pretende ler este texto, saiba antes que ele pode conter gatilhos sobre suicídio.

Manhã de uma quinta-feira comum em Copacabana. O Sol brilha, um morador de rua grita, turistas voltam da praia, alguém xinga no cruzamento. Da janela de casa dá para ouvir quase tudo isso, e não foi diferente com o barulho no asfalto.

Eu entrava na sessão semanal online com a psicóloga, provavelmente para lamuriar sobre como a tal série de reportagens sobre saúde mental que estava produzindo para a Folha estava me deixando “louca”, quando um homem se suicidou no prédio da frente.

A primeira reação foi visceral: meu deus, que tragédia. A segunda foi racional: está muito mais perto do que imaginamos. E a terceira foi inevitavelmente jornalística: puxa, como meu trabalho pode ser fundamental nesse momento.

Com “esse momento” quero dizer o ano de 2022, em que mais de 35 pessoas se matam por dia no Brasil. O número é tão alto que, apesar de público e notório na área, causou espanto em quem o leu pela primeira vez em 17 de julho, na estreia do especial Brasil no Divã.

Narrando como o país vive “uma segunda pandemia na saúde mental, com uma multidão de deprimidos e ansiosos“, a reportagem teve uma repercussão que nem eu imaginava. Foi compartilhada até pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), de forma distorcida, para corroborar o discurso do “eu avisei” quanto às consequências do lockdown da Covid.

O impacto inclusive dentro da minha bolha escancarou como tanta gente perto de mim deve estar mesmo mal da cabeça. E a urgência de estamparmos o problema diariamente nos jornais para evitar que ele se esparrame ao ponto de não conseguirmos juntar os cacos depois.

Foi esse sentimento que embrionou a série nove meses atrás —com um empurrãozinho da chefe Juliana Coissi–, depois de escrever uma reportagem sobre brasileiros serem os que mais se preocupam com sua saúde mental, segundo pesquisa da Ipsos.

Na verdade, mais do que isso: uma impressão de que discutimos à exaustão sobre o assunto durante a pandemia dentro de uma lógica de terapia paga restrita às elites, mas pouco debatemos sobre o preparo do nosso sistema público para lidar com a explosão dos transtornos da maioria.

Demorou alguns meses para que a ideia fosse nutrida, pelo atropelo das outras coberturas “quentes” nada raras na cidade do Rio de Janeiro, de onde escrevo. Até que Bob, Roberto de Oliveira, editor de Projetos e Parcerias da Folha, conseguiu a verba que deu corpo ao projeto —a saber, com a Janssen, sem qualquer interferência editorial.

A partir daí me debrucei completamente sobre o tema, com o qual não tinha nenhuma intimidade. Como um dos psiquiatras me alertou, “fui picada pelo mosquitinho da saúde mental”, que, descobri, desperta paixões e discussões acaloradas em muitos.

O primeiro passo foi reunir o maior número de dados possível e achar gente que se dedica à área há décadas (aqui vem um agradecimento que não posso deixar de fazer ao doutor Jair Mari, que me orientou durante todo o percurso e abriu as portas do Caism, centro de referência da Unifesp).

Delineados os cinco capítulos que norteariam a série, a pergunta que martelou em seguida foi: como contar essas histórias invisíveis em imagens? Como ilustrar as aflições da mente? Pesquisei, então, lugares que pudessem simbolizar as ideias principais de cada reportagem.

Fiz as malas e, junto ao fotógrafo, parceiro e motorista da rodada Adriano Vizoni, perambulamos do Sul ao Norte do país. Começamos por Porto Alegre e Venâncio Aires (RS), que espelharam o tamanho do problema nas taxas altíssimas de depressão e suicídio gaúchas.

O Oiapoque (AP) exemplificou como, duas décadas após uma grande reforma psiquiátrica, o Brasil ainda sofre para levar tratamento digno a todos. Foram dez horas de estrada num 4×4, metade delas percorridas na lama até a fronteira com a Guiana Francesa.

Depois, a capital Macapá mostrou que a cultura dos hospícios, na prática, existe até hoje, enquanto o Rio relembrou o passado de violências em grandes manicômios como o Instituto Municipal Nise da Silveira, o mais antigo do país.

São Paulo e o Instituto de Psiquiatria da USP expuseram como o estigma da “loucura” acaba impedindo a busca por ajuda como na eletroconvulsoterapia (antigo eletrochoque). Já Campinas, interior do estado, demonstrou o caminho que já percorremos e ainda podemos percorrer para melhorar.

Findado o mês de viagens e as dezenas de entrevistas, restaram 143 páginas de apuração a serem relidas, interpretadas e condensadas nos cinco textos, três vídeos (pelo amigo Nicollas Witzel, da TV Folha) e 13 infográficos que construiriam a série, publicada entre julho e agosto.

Junto disso, uma preocupação em falar sobre tudo que vai mal na saúde mental sem incentivar mais depressão e suicídio, seguindo orientações para não sensacionalizar relatos. Explicar que os problemas só estão sendo retratados porque têm solução.

Assim se resume o maior aprendizado que carrego todos os dias quando ando nas calçadas de Copacabana e ouço gritos indistintos de quem mora nelas. “O doente mental tratado não é perigoso”, ecoa a fala do psiquiatra na minha cabeça.

O que interpretamos como loucura é apenas resultado de séculos de invisibilidade de um problema de saúde pública, portanto dá para melhorar. Que a série Brasil no Divã ajude a interromper destinos como o do vizinho anônimo do prédio da frente.

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