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Partidos tentam alavancar candidatos a prefeitos com ‘influencers’ e grupos de WhatsApp

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Fernando Alfredo, presidente do PSDB-SP, mostra santinho com QR Code para evitar contato com eleitores; ao escanear imagens, celular aponta para material de campanha digital

A pandemia do covid-19 reduziu o volume de campanha na rua com material físico e levou os candidatos a prefeito a buscarem novas estratégias digitais para explorar o apoio do seus “exércitos” de candidatos a vereador. Postulantes a cargos no Legislativo municipal formam a principal rede de apoio aos candidatos e funcionam como ligação com a base de eleitores, por isso, em geral, líderes comunitários ou pessoas identificadas com determinadas causas de apelo popular são escolhidas pelos partidos.

Diante dos desafios impostos pelo novo coronavírus, neste ano, no entanto, outros atributos entraram na hora de escolher um candidato à Câmara Municipal: número de seguidores nas redes sociais, quantidade de grupos de WhatsApp de que faz parte e capacidade de engajamento nas redes sociais. Partidos políticos criaram santinhos com QR Code, para evitar o contato, arquivos digitais de material de propaganda para facilitar o disparo em listas de distribuição e até uma equipe de “mentoria” para uniformizar a atuação digital dos candidatos a vereador.

Marqueteiros e candidatos dizem que os santinhos de papel não deixaram de circular e o corpo a corpo em redutos eleitorais ainda faz parte da agenda, mas em proporções muito menores que nos tempos pré-pandemia. “O WhatsApp nessa eleição vai ser o novo corpo a corpo”, disse Wilson Pedroso, coordenador da campanha à reeleição do prefeito Bruno Covas (PSDB).

Com uma coligação de 10 partidos, Covas conta com o maior volume de candidatos a vereador: 763. O comitê tucano estimulou entre eles a criação de grupos temáticos e regionais de WhatsApp, criou listas de transmissão para enviar materiais digitais do candidato com a foto do prefeito e adotou até o santinho de papel com um QR Code. Para quem não quiser correr risco de encostar no papel, basta aproximar o celular que a propaganda surge na tela e com diversas opções de links. “O eleitor aproxima o celular do QR code e vai para o site e as redes sociais do Bruno, onde encontra todos os candidatos da coligação”, disse Fernando Alfredo, presidente municipal do PSDB.

No novo normal eleitoral, o principal ativo dos cabos eleitorais passou a ser seus grupos de WhatsApp e o número de seguidores nas redes sociais. Vale grupo do trabalho, amigos e até do condomínio. “Não tem jeito, nesse contexto de pandemia é inevitável se pensar no meio digital. Não anula o corpo a corpo mas cria uma nova rotina, um novo jeito de conversar com as pessoas”, disse Thammy Miranda. Candidato a vereador pelo PL, partido da coligação de Covas, ele tem 3 milhões de seguidores no Instagram, 642 mil no Facebook e 120.900 no Twitter. A título de comparação, o prefeito tem 208.367 seguidores no Facebook.

Thammy Miranda, candidato a vereador pelo PL, tem 3 milhões de seguidores no Instagram e 642 mil no Facebook

Miranda conta que uma parte da sua propaganda é só do candidato a vereador, mas outra é casada com o candidato à reeleição. “Nas redes sociais dá pra ter um contato diário com o eleitor. Falo com mais de 4 milhões de pessoas diariamente e tenho que trabalhar meu conteúdo para que as pessoas possam decidir o voto”, disse Miranda.

O MDB criou uma ferramenta para oferecer de graça o marketing de campanha a seus candidatos a prefeito e vereador. O MDB Drive permite baixar santinhos, faixas, cards e até jingle direto do site do partido.

Coordenador de redes digitais da campanha de Márcio França (PSB), o publicitário Reginaldo Ferrante escalou uma equipe de “mentoria” para mapear as redes digitais dos 376 candidatos a vereador da coligação e integrar esse público. Para essa tarefa, o comitê criou um aplicativo chamado “aqui tem palavra” feito apenas para os candidatos. “Nós cruzamos o conteúdo do vereador com nosso programa de governo usando o crosscontact”, explica Ferrante.

Dessa forma, os candidatos recebem um material digital sob medida com a presença de França para ser distribuído em seus grupos de WhatsApp e demais plataformas. “Acredito muito no Márcio e irei fazer campanha junto com ele. A ideia é potencializar nosso alcance usando as redes conjuntamente, o que promove uma visibilidade maior para nós dois e permite que mais pessoas conheçam nossos projetos para a cidade”, disse o ex-atleta olímpico Diego Hypólito, candidato a vereador do PSB, que tem 594 mil seguidores no Instagram.

“Essa é uma eleição experimental. O mantra é unir o online com o offline”, disse Elsinho Mouco, marqueteiro de Celso Russomanno (Republicanos). O deputado conta com 166 candidatos a vereador em sua coligação, o terceiro maior número, mas ainda não finalizou sua estratégia digital. A equipe está fazendo um banco de dados para depois integrar os materiais.

O ex-ginasta Diego Hypólito, candidato a vereador pelo PSB, tem 594 mil seguidores no Instagram

A Lei Geral da Proteção de Dados, que entrou em vigor em setembro, fez com que os candidatos tomassem mais cuidado na hora de enviar material de campanha virtual. Segundo o advogado Francisco Cruz, diretor do InternetLab e membro da Comissão de Direito Eleitoral da OAB-SP, as campanhas devem ter alguma base legal, como o consentimento, antes de sair distribuindo material de campanha. Além disso, devem fornecer mecanismos de descadastramento aos eleitores. O desafio, neste contexto, é conseguir a autorização das pessoas.

“A gente considera eleitor aquela pessoa que te deu o contato. Mesmo que ela não vá fazer mais nada, ela já mostrou que tem muito potencial para votar em você”, afirma a médica Roberta Grabert, candidata a vereador em São Paulo pelo NOVO. Para isso, Roberta tem usado os grupos de WhatsApp dos quais já faz parte. Até mesmo um grupo de síndicos – ela já ocupou o posto no prédio onde mora – virou palco do debate. Roberta envia, nesses grupos, um link convidando as pessoas para um novo grupo de WhatsApp – este sim voltado para política, no qual ela manda material eleitoral.

De acordo com o advogado Francisco Brito Cruz, esse tipo de abordagem está de acordo com o que prevê a legislação. Para Roberta, o método ainda “evita que as pessoas se sintam invadidas.”

O risco de perturbar o eleitor, aliás, pesa nas campanhas. “Eu não aguento mais os grupos de WhatsApp”, conta o analista de operações Alexandre Aebi. “Gosto de política, mas ainda assim isso tem sido um exagero”, sustenta ele, que recebeu mensagens privadas de lista de distribuição e foi adicionado a grupos de candidatos que considerava apoiar – ele não sabe como seu contato foi compartilhado. Uma candidata ainda pediu desculpas depois de adicioná-lo e chegou a dizer que, “no meio da confusão do WhatsApp, acabei criando um grupo e sem querer te adicionei”.

A medida, que Alexandre considerou “uma invasão de privacidade”, o levou a repensar seu voto. “A equipe está se atrapalhando pra disparar mensagem pelo WhatsApp, o que teoricamente é uma atividade simples. Como que vai ser quando tiver outras 25 demandas ao mesmo tempo?”, questionou.

‘Gerente’ de grupos responde eleitores

Em meio à escalada da campanha virtual, não basta que o candidato consiga contatos, faça a gestão de grupos de calcule quantas mensagens enviar: é preciso também respondê-las, o que fez surgir uma nova ocupação para os profissionais de campanha, que ficam dedicados a interagir nas redes e a manter o diálogo vivo nos grupos de WhatsApp.

“Eu estou em todos os grupos, mas não é sempre que eu consigo responder todo mundo, então eu tenho uma menina da minha equipe que me ajuda a responder quando eu nao consigo”, conta a cientista política Malu Molina, candidata a vereador em São Paulo pelo Cidadania.

Malu tem organizado grupos “temáticos”, para discussão de pautas que ela quer encampar, como empreendedorismo e educação, e também grupos de mobilização para a própria campanha. “No final do dia, é uma outra forma de fazer o olho no olho, de ouvir”, defende ela.

Candidato a vereador pelo PSB em São Paulo, Samuel Emílio segue uma linha parecida, e diz que, além de grupos para discussões temáticas com seus apoiadores, já organizou 184 grupos de WhatsApp com apenas três pessoas em cada: ele, um apoiador interessado e uma “facilitadora” de sua equipe, que ajuda a manter a conversa.

“Nossas facilitadoras têm um trabalhão; elas precisam interagir com as voluntárias e perguntar da vida delas, saber quem está doente, bem, quem está com a mãe, casado, quem separou, afirma Samuel. “As pessoas não querem informações padrão, elas quem um tratamento personalizado, querem responder você.”

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