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Obituário: Joel Martins Cardozo – 20/08/2022 – Morte Sem Tabu

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Obituário: Joel Martins Cardozo - 20/08/2022 - Morte Sem Tabu

No dia 5 de agosto, às duas e meia da manhã, morria Jô Soares. Seu obituário, e os bastidores desse texto, escrito por mim, logo passou a circular nas redes.

Jô foi velado na Funeral Home, na Bela Vista, em São Paulo. Logo na sequência, o ar daquele mesmo espaço recebeu as vozes e as lágrimas de saudades da família de um outro Jô, que também morreu por volta das duas e meia da manhã. Esse Jô é de Joel.

Economista, militante político, e professor, Joel teve um único filho, o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, e dois netos, a advogada Mayra Martins Cardozo e Theo Rady Magalhães Martins Cardozo.

Passou os últimos onze anos sem os movimentos de uma das pernas, e sem a fala, sequelas de um coma que o deixou entre os mundos por meses. Mas a consciência intacta permitia que ele abrisse um sorriso quando recebia visitas das pessoas queridas. Passou a se comunicar pelos olhos. Acompanhava a vida do filho, recém-empossado ministro, chamando a esposa para vir correndo vê-lo na televisão.

Joel via futuro para um menino que fosse culto. Incentivava a leitura e insistiu para que aprendesse música. Comprou um piano quando o menino tinha 7 anos. José Eduardo estudou o instrumento e chegou a tocá-lo em uma de suas entrevistas lá no Jô, Soares, que décadas depois morreria no mesmo dia e na mesma hora que seu pai e seria velado no mesmo local.

O piano não chegou sem esforço. Joel teve uma infância sem regalias. Foi criado na zona leste de São Paulo, por uma mãe viúva e pelo tio. Trabalhou na pequena fábrica do tio, frequentava a juventude operária católica.

Se mudaram para o bairro do Brooklin novo, onde sua mãe e a tia ficaram conhecidas pela Pichu, uma loja de roupas de criança.

A loja chamava atenção e logo atraiu um menino que se tornaria grande parceiro da família, o advogado Marco Aurélio Carvalho. Um dia de 1989, um Marco de 12 anos estava andando no bairro de bicicleta, quando foi atraído por uma placa da Erundina. O garoto já era politizado e tinha simpatia por ela. Parou e percebeu que se tratava de uma loja de roupas de crianças.

Ao se aproximar, viu que ali também acolhia um comitê popular. As donas, Zilda e sua irmã Darcy, não espantaram o menino que queria se meter em assunto de adulto, mas sim estimularam sua curiosidade. Marco Aurélio ficou amigo das donas e do marido de Zilda, Joel. Não demorou para se aproximar do filho do casal, de quem se tornaria amigo e assessor jurídico e político.

O caráter aglutinador e o respeito pelas diferenças é uma característica muito mencionada por quem o conheceu. A determinação também.

Joel dedicava-se com afinco a tudo que se prestava a fazer. Ia até o fim. Começou a trabalhar em uma empresa de pilhas, como propagandista, colocando placas nas lojas. Passou a vendedor e acabou como gerente nacional. Entrou para a maçonaria e foi crescendo até ser um ‘venerável’, título dado ao chefe da loja, grau 33.

Entrou para o PSB, Partido Socialista Brasileiro, e foi um dos responsáveis pela sua consolidação. Presidiu o partido em São Paulo de 2001 a 2003.

Foi se formar na faculdade, economia no Mackenzie, só depois dos trinta anos. Mas também subiu rápido, se tornou professor universitário, na ESPN. E lá dentro, era um professor homenageado.

Na militância política também foi assim, fiel e coerente.

Em uma época em que o campo progressista era marginalizado, entrou de cabeça no PSB e recebeu Luiza Erundina de braços abertos quando ela migrou do PT para o PSB. Erundina considera Joel fundamental para a consolidação do PSB como partido. Uma liderança política modesta e muito dedicada. Homem solícito, generoso. Simples e com extraordinária capacidade de trabalho.

Joel também podia ser encontrado na Assembleia Legislativa de São Paulo. Foi chefe de gabinete do então deputado estadual Pedro Dallari. Pedro diz que Joel foi uma das figuras mais generosas e disponíveis que ele conheceu. Era uma pessoa muito organizada e um líder. Atribui a boa avaliação dos seus oito anos de mandatos, em grande parte, à capacidade de organização do Joel.

Pai e filho politizados, com caminhos diferentes. Joel era presidente do PSB enquanto o filho era vereador pelo PT. Mas os amigos do filho eram, também, os amigos de Joel.

Ernesto Tzirulnik estudou com José Eduardo na faculdade, na PUC-SP. Ficaram amigos e companheiros do movimento estudantil. Achava o pai do amigo uma pessoa doce e alegre, sempre de bom humor.

Quem sabe a alegria é porque estava acostumado a duplas comemorações. Nasceu no dia 1 de fevereiro de 1931, foi registrado no dia 2 e brincava que tinha dois aniversários. Mas o que chamava mais atenção de Ernesto em Joel era o vigor da pele. Um homem que nunca teve uma ruga sequer na vida. A jovialidade fácil surpreendia todo mundo que o conhecia. Essa vitalidade foi interrompida por um AVC, em 2011.

O coma prolongado assustou os amigos, que ficaram com a lembrança de uma possível ameaça de desligarem as máquinas. Não desligaram e Joel voltou à vida, como dizem.

No leito do hospital, não saía do seu lado a ex-procuradora de Justiça do Ministério Público de São Paulo, Sandra Jardim, ex-nora de Joel, casada por 17 anos com José Eduardo. Para ela, não existe ex-sogro. Sandra perdeu o pai muito cedo e Joel tomou esse espaço. Ele visitava Sandra e a neta, Mayra, todos os sábados.

Os Natais dessa família eram muito criativos. Joel escrevia e dirigia jograis. Entregava para cada um uma pasta, com o texto grifado e a indicação do momento em que deveriam entrar.

Outra cena de intensidade emocional é o grito de gol que pai e filho compartilhavam ao ver o São Paulo jogar. Os dois fanáticos pelo São Paulo Futebol Clube. Não deveria ser diferente, pois logo pequenininho o pai levou o menino ao estádio do Morumbi, que ainda estava em construção. O São Paulo fez 8 a 1 contra o time Mitsubishi, conquistando para sempre o coração do pequeno torcedor, agarrado no pai.

Nos dois últimos meses de vida, Joel passou no hospital, lidando com uma infecção. Bem na semana do casamento da neta, ele piorou, já alternava a lucidez. Pensaram em cancelar o casório. Mas a médica Ludhmila Hajjar entrou com uma hemodiálise que deu a Joel os 15 dias a mais que precisava para ver a neta voltar de Ilhabela, e se encantar com as fotos passando entre os dedos dela. Não podia falar, mas o aperto de mão, e o olhar, disseram naquele momento tudo que precisava ser dito.

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