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O templo da moda vai a leilão

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O templo da moda vai a leilão

Não raras vezes o apogeu embute a débâcle, não raras vezes a glória traz em si a ruína – assim é o vaivém dos negócios em qualquer parte do mundo. O que surpreendeu, portanto, em relação ao maior templo da moda e do luxo já existente no Brasil não foi a falência, mas, sim, o perverso destino que fez com que a sua proprietária saísse do comando de uma loja de vinte quilômetros quadrados para morar numa cela de três metros de comprimento por dois de largura. Das nuvens ao chão, a queda da famosa Daslu, localizada sempre em nobres regiões da cidade de São Paulo, foi vertiginosa. Da opulência ao nada, um baque. Agora, em leilão online cujos vencedores serão conhecidos na quarta-feira 11, o espólio dessa marca está sendo vendido. O que se oferece para ser arrematado, por ordem judicial, é o próprio nome Daslu, com lance mínimo de apenas R$ 1,4 milhão. Isso não é comum entre nós que estamos acostumados a leilões nos quais se compram coisas. Parece abstração adquirir a marca, mas, para se ter uma idéia da importância dessa tradicional casa, alguém que se vestia com artigos comprados na Daslu fazia questão de mostrar que estava vestindo Daslu. “Há motivo para que exista interesse no arremate da grife”, diz a leiloeira Carolina Sodré Santoro. “Houve época em que a Daslu, de tão elegante que era, chegou a faturar, em moeda nacional, um bilhão por ano”.

O sucesso, pelo menos no início, deu-se por acaso. Em 1958 as amigas e empresárias da elite paulistana Lúcia Piva Albuquerque e Lourdes Aranha dos Santos resolveram vender produtos chiques de moda em uma pequena casa do bairro Vila Nova Conceição. Se houvesse intenção, a ideia não teria dado tão certo. Em pouco tempo estavam elas valendo-se de vinte casas na vizinhança para o seu negócio, todas interligadas por tortuosos corredores. Não havia nome em nenhuma das portas, nem vitrines, muito menos publicidade. Proprietárias, freguesas e funcionárias sabiam que o nome era Daslu porque “Lu” funcionava como apelido tanto para Lúcia quanto para Lourdes. Em meados dos anos 1980 Lúcia faleceu, e sua filha, Eliana Maria Piva Albuquerque Tranchesi, assumiu a direção da loja que já oferecia as mais requintadas gripes internacionais. Era muito movimento, era muito entra e sai, eram muitas as limusines nas redondezas, eram muitos os choferes fumando e conversando próximos às residências. Os moradores passaram a reclamar. A Prefeitura, por sua vez, exigiu a paralisação dos negócios porque ao bairro se reservava somente residências. O mal veio para o bem, e tal bem revelou o mal, feito roupa que, sem querer, se veste pelo avesso.

Não raras vezes o apogeu embute a débâcle, não raras vezes a glória traz em si a ruína. A marca Daslu passou por todas essas fases

Em 2005, Eliana inaugurou no bairro da Vila Olímpia a exuberante Villa Daslu: arquitetura neoclássica, quatro espetaculares andares, investimento de duzentos milhões de reais, setecentas funcionárias, a maioria delas advindas de famílias tradicionais de todo o País: entre essas moças refinadas estiveram, por exemplo, Sophia Alckmin, filha do ex-governador e vice na chapa de Lula à Presidência da República, Geraldo Alckmin; e Carolina Magalhães, neta do ex-ministro e ex-senador Antônio Calos Magalhães. Vendedoras desse status passaram a ser conhecidas como “Dasluzetes” e “It girl”, expressão altamente elogiosa extraída da literatura britânica e que significa possuir inteligência, finesse, charme, cultura e magnetismo. É muito mais que sexy appeal: é ser espirituosa e carismática. Vivia-se, então, o apogeu, a Daslu tornara-se representante no Brasil da maioria das grifes consagradas: Chanel, Dior, Dolce & Gabbana, Gucci, Prada, Louis Vitton, Ferragano e Church, entre outras. “Ela trazia o novo conceito de vendas chamado multimarcas”, diz a leiloeira. Como já se afirmou, era o apogeu… mas a débâcle espreitava.

A Polícia Federal e o Ministério Público, baseados em documentos contábeis, acusaram Eliana dos crimes de descaminho (fraude tributária em importação e exportação), organização criminosa e falsidade ideológica. Eliana é presa, é solta, vê-se condenada em 2009 à pena absurda de noventa e quatro anos de prisão. Novamente institucionalizada, em sua cela reinava o ostracismo, até que rapidamente lhe deram o direito constitucional de aguardar os recursos em liberdade. Em meio a isso nasceu uma nova loja Daslu no sofisticado Shopping Cidade Jardim. Eliana morreu de câncer em 2012, mesmo ano em que a Daslu, já em outras mãos, passou a operar no Shopping JK Iguatemi, um dos mais luxuosos da América Latina. Em 2016 deu-se o inevitável: a falência. “Apesar de tudo, engana-se quem acha que a marca está depreciada. Alguém que possua um grande empreendimento pode comprá-la e agregar valor ao seu negócio”, diz Carolina Sodré.

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