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Bairros

O abismo da média de idade ao morrer em São Paulo

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Cerca de 40 quilômetros e 23 anos de vida separam um morador de Moema, bairro rico da zona sul de São Paulo, de alguém que vive na Cidade Tiradentes, bairro pobre na zona leste. A taxa de mortalidade infantil em Marsilac, no extremo sul, é 23 vezes maior do que em Perdizes, na zona oeste. Pode-se ir a pé a diferentes cinemas na região da avenida Paulista, mas 54 distritos da capital não têm sequer uma única sala de cinema.

São Paulo concentra, em uma só cidade, índices comparáveis aos dos países mais ricos e aos dos países mais pobres do mundo, mostra o Mapa da Desigualdade, da Rede Nossa São Paulo, publicado nesta terça-feira (5), que compara indicadores dos 93 distritos e escancara os contrastes da metrópole paulistana.

Um dos mais gritantes é a idade média ao morrer. Em Moema, a média de idade das pessoas que morreram ao longo do ano passado foi de 80,6 anos a fins de comparação, a expectativa de vida da Alemanha e da Dinamarca é de 81 anos.

Já na Cidade Tiradentes, esse número foi de 57,3 anos pouco mais que um morador da Somália.

O cálculo da ONG não é o de expectativa de vida ao nascer, que considera uma série de fatores, como o índice de desenvolvimento humano. O que a Rede Nossa São Paulo faz é uma média entre as idades das pessoas que morreram em determinado ano o que inclui, aí, mortalidade infantil, que é alta na Cidade Tiradentes.

Em bairros onde vivem mais negros, morte ocorre mais cedo

Os dados revelam também que, em São Paulo, a idade ao morrer está diretamente ligada à cor da pele: Moema, onde se morre mais velho, é também o distrito mais branco da cidade – segundo o Censo 2010, a população negra em Moema era de apenas 5% do total de moradores. No outro extremo, na Cidade Tiradentes, negros são 56,1% dos moradores, mais da metade da população do distrito.

No mapa, a desigualdade entre negros e brancos é evidente: todos os cinco distritos onde mais moradores se declaram negros estão na periferia – Jardim Ângela, Grajaú, Parelheiros, Lajeado e Cidade Tiradentes. E em todos a idade média ao morrer não passa dos 60 anos, bem abaixo da média da cidade, que é de 68,7. No outro extremo, os cinco distritos com menor população negra – Moema, Alto de Pinheiros, Itaim Bibi, Jardim Paulista e Vila Mariana – têm uma média de idade ao morrer acima dos 78 anos.

A violência é tida como outro fator importante por baixar o tempo médio de vida no distrito da zona leste. O impacto é cíclico, já que a criminalidade é considerada agente de atraso do desenvolvimento econômico estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) estima que as perdas do país com a violência custam o equivalente a 6% do PIB do país.

Isso mostra as complexidades de se viver em um lugar onde há uma desigualdade tão grande. Existem várias cidades numa só, diz Carolina Guimarães, coordenadora da Rede Nossa São Paulo.

Morador da Cidade Tiradentes, Ângelo Guilherme brinca que graças a Deus passou da média e chegou aos 67 anos.

A gente depende muito do governo aqui, que aparece pouco. Mas no ano que vem, na eleição, vai ter político aqui das 7h à 22h pedindo voto. Enquanto isso a gente tem que fazer o que dá. A gente é incansável, não para, diz ele, que montou uma associação cultural, a Elite, que dá aulas de futebol, balé, cursos profissionalizantes e atua na luta por moradia. Esse projeto já tirou muita gente da rua aqui, diz.

Cidade Tiradentes, o pior em média de vida, fica no extremo leste da cidade. Marsilac, no extremo sul, não deixa por menos: a idade média ao morrer no distrito é de 57,5 anos.

A região concentra os piores indicadores de mortalidade infantil (23 vezes maior do que em Perdizes) e gravidez na adolescência que é 53,4 vezes maior do que em Moema.

Pouco antes de falar com a reportagem, o conselheiro tutelar João Cedro, 46, atendia uma avó da região que não sabia o que fazer com a neta, que, com 14 anos, está no quinto mês de gravidez.

É muito comum aqui, sempre chegam casos para mim. Aí a adolescente fica grávida, precisa abandonar a escola, não arruma emprego e o ciclo continua, diz ele. E a gente fica de mãos atadas. Nesse caso específico, a avó disse que a orientou o tempo todo, mas a menina se envolveu com um rapaz maior de idade da escola e, quando viu, engravidou.

O mapa mostra ainda que a maior parte dos distritos da cidade não têm nenhum equipamento cultural, seja casa de show, biblioteca, teatro ou cinema neste domingo (3), o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) pediu que os candidatos escrevessem uma dissertação sobre o acesso ao cinema.

A lógica periferia versus centro, no entanto, destoa em alguns temas, diz Carolina Guimarães. É interessante pensar que os ricos, que pagam mais para viver, respiram um ar mais impuro e estão mais sujeitos a acidentes de trânsito, afirma ela.

Segundo os dados do mapa, distritos centrais, como Sé, República e Bela Vista, e áreas ricas, como Pinheiros, Moema, Itaim Bibi e Jardim Paulista concentram até 1.200 vezes mais poluição atmosférica do que bairros afastados e mais pobres, como Marsilac, Parelheiros, Grajaú e Perus.

Na periferia, morre-se mais por causas externas como acidentes e violência
Dados revelam que, em São Paulo, a idade ao morrer está diretamente ligada à cor da pele
Para pesquisadora, a desigualdade social na Cidade Tiradentes traz um peso ainda maior para mulheres
Quem vive na Cidade Tiradentes, no extremo leste de São Paulo, morre em média 23 anos mais cedo que um morador de Moema, bairro com um dos metros quadrados mais valorizados da capital. Os dados, a que a Agência Pública teve acesso, são parte do Mapa da Desigualdade 2019, publicação da Rede Nossa São Paulo, que compara indicadores dos 96 distritos da capital paulista. As informações são baseadas nos óbitos registrados em 2018, informados pela Secretaria Municipal de Saúde.

A principal causa de morte na Cidade Tiradentes, segundo os dados mais atuais da própria secretaria (2017), foram doenças do aparelho circulatório, que representam quase um terço do total de óbitos (32%). Já em Moema, o principal motivo foram tumores (28% das mortes). Além disso, entre os dois bairros há uma diferença significativa entre as mortes por causas externas, que incluem acidentes e mortes violentas: na Cidade Tiradentes, 11% das mortes ocorreram nessa categoria; já em Moema, essas mortes não chegam a 5% dos casos.

O abismo da média de idade ao morrer se repete por toda a São Paulo: em distritos da periferia paulistana como Marsilac, Grajaú, São Rafael, Anhanguera e Jardim Ângela, pessoas morrem cerca de 20 anos mais jovens do que em vizinhanças consideradas “ricas”, como Santo Amaro, Itaim Bibi, Alto de Pinheiros, Consolação e Jardim Paulista.

Assim como na Cidade Tiradentes, em todos os demais cinco distritos da periferia de São Paulo onde se morre mais cedo (Marsilac, Grajaú, São Rafael, Anhanguera e Jardim Ângela), a principal causa de morte são doenças do aparelho circulatório. Em Marsilac, mortes por causas externas – que incluem mortes violentas e causadas por acidentes – representam quase 18% do total; no Jardim Ângela, foram 12% dos óbitos; no Grajaú, 11%.

Já nos bairros “ricos” (Santo Amaro, Itaim Bibi, Alto de Pinheiros, Consolação e Jardim Paulista), as mortes por causas externas são bem menos frequentes: em nenhum dos cinco bairros elas passam os 5,6%.

O principal fator que explica essa desigualdade é o tráfego muito menor de carros nessas regiões.

Pelo mesmo motivo, distritos como Barra Funda, Sé e Bom Retiro, além de áreas ricas como Morumbi, Pinheiros e Itaim Bibi, registram até 13 vezes mais acidentes de trânsito que o Jardim Ângela, São Rafael e Cidade Tiradentes.

Quando você fala de legislação em São Paulo, é incrível. Tem Plano Municipal pela Primeira Infância, plano de segurança viária, plano de mudanças climáticas. Mas quando vê, esses planos e esses direitos não estão sendo territorializados. Isso mostra como a cidade ainda tem muito a se desenvolver, diz Guimarães.

Sobre o Mapa da Desigualdade

Desde 2012, a Rede Nossa São Paulo elabora e divulga anualmente o Mapa da Desigualdade da Cidade, um estudo que apresenta indicadores dos 96 distritos da capital paulista, compara os dados, e revela a distância socioeconômica entre os moradores das regiões com os melhores e piores indicadores.

Trata-se de uma valorosa ferramenta para a gestão e o planejamento municipal, pois pode auxiliar os tomadores de decisão a identificar prioridades, carências e necessidades da população e seus distritos.

Confira a apresentação do Mapa da Desigualdade 2019

Confira as tabelas completas do Mapa da Desigualdade 2019

Fontes: GauchaZH – APublica – Rede Nossa São Paulo

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