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No Brasil enlutado pela covid-19, grupos on-line acolhem famílias em isolamento

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© MICHAEL DANTAS Parentes de vítimas da covid-19 diante de fossa coletiva no cemitério Nossa Senhora em Manaus, Amazonas, em 6 de maio de 2020

“As pessoas contam os mortos, mas ninguém lembra que tem toda uma família por trás”, conta Dieisy Seitenfus, que procurou ajuda psicológica assim que soube do falecimento de sua mãe em um hospital da rede pública em julho, vítima do novo coronavírus, que já causou mais de 190.000 óbitos no Brasil.

Devido ao distanciamento social, a assistência e acompanhamento psicológico remotos em grupos de apoio, como o “Ressignificando o Luto” e o “Projeto Acolher Perdas e Luto”, tornaram-se ferramentas importantes para lidar com essa realidade.    

Segundo especialistas em saúde mental, há uma estimativa de que quatro a 10 pessoas sejam diretamente impactadas por cada perda. No Brasil haveria, portanto, de 760 mil a 1,9 milhão de pessoas vivendo o luto. 

Ao longo dos últimos nove meses, uma massa enlutada recebeu caixões lacrados com o desafio de seguir a vida após perder quem se ama, enquanto enfrenta uma pandemia em um país com economia fragilizada e desemprego nas alturas. 

“Comecei a participar de grupos para pessoas enlutadas que encontrei nas redes sociais, como o Ressignificando o Luto. Falávamos sobre nossos dias e angústias”, conta Seitenfus, de 30 anos, professora no Rio Grande do Sul.   

“As pessoas têm medo de conversar sobre luto, fingem que está tudo bem”, acrescenta. 

No Maranhão, situado na segunda região do país com mais mortes pela covid-19, Rosinélia Machado, de 49 anos, e sua família tiveram a doença no início da pandemia. Sua mãe, de 73, se recuperou, mas a filha, Ana Caroline, de 31, não resistiu. 

Após a morte, ela teve acompanhamento psiquiátrico e buscou ajuda no Projeto Acolher Perdas e Luto. 

“Fiquei alguns dias sem comer e dormir, até pensei em suicídio. No celular, encontrei e me inscrevi no grupo. Foram 12 semanas de estudo, com sessões virtuais para contar nossa história e atividades variadas”, relata a professora de filosofia.  

“A mais difícil foi a primeira tarefa, sobre a validação da minha dor, em que tinha que me olhar no espelho e conversar comigo sobre o que aconteceu”, recorda. 

“Transformei meu luto em luta e criei um instituto em homenagem à minha filha”, ressalta. 

O Projeto Acolher Perdas e Luto, criado pela terapeuta Rosana de Rosa em 2018, propõe um programa gratuito de 12 etapas para lidar com o luto, construído a partir da própria experiência de ter perdido dois filhos. Psicólogos e acolhedores são voluntários, com atividades que incluem diálogo, tarefas e meditação. 

– Uma morte “afetivamente desamparada”

Embora equipes de psicologia hospitalar já existissem para auxiliar pacientes internados e familiares, o desafio com o coronavírus foi desenvolver essa assistência de forma remota e humanizada.

“Antes, nosso hospital permitia acompanhamento 24h da família nas UTIs. Com a covid-19, essa presença se transformou em um telefonema de boletim médico ao dia. Isso gera muitos danos para o paciente e a família”, conta a psicóloga Giovana Rossilenzi, que coordena a equipe de psicologia do Hospital Santa Catarina, na Avenida Paulista, em São Paulo.

“Criamos o projeto ‘cartas terapêuticas’, no qual familiares escrevem cartas entregues aos pacientes internados, e a equipe de enfermagem gerencia visitas virtuais aos pacientes por meio dos tablets”, explica. 

Nesse hospital, Manoel Gama, funcionário público de 67 anos, foi internado com a covid-19 e sofreu um infarto como complicação da doença, passando por cirurgia para colocar um stent. 

Em meio a tudo isso, faleceu sua esposa, diagnosticada também com o novo coronavírus. 

“Para me darem a notícia, tiveram todos os cuidados. Minha pneumologista me contou. O apoio da médica foi fundamental para aquela pancada dolorida. A Márcia foi minha primeira namorada”, conta.

Durante sua reabilitação, Gama fez sessões de fonoaudiologia e fisioterapia respiratória várias vezes ao dia. Porém, a assistência psicológica foi indispensável para sua recuperação. 

“A psicóloga foi fundamental, todo dia ligava pra mim. Fazia terapia por telefone. Não solicitei acompanhamento psicológico, mas a médica disse que não ia me curar se estivesse mal da cabeça”, relata.

O processo de luto tem fases muito importantes para a assimilação da morte. 

São os rituais de passagem, que incluem para os mais próximos do falecido vestir o corpo, além de velório, enterro ou cremação. Em tempos de covid-19, nada disso é possível.

“Vivemos agora uma sequência de lutos. Temos o luto óbvio das pessoas que perderam familiares para a covid-19 e há o luto das outras doenças. A morte na era covid é uma morte afetivamente desamparada. É uma condição que tem grandes chances de deixar as pessoas que ficaram vivas com um processo de luto complicado”, ressalta a geriatra e paliativista Ana Claudia Arantes, autora do livro ‘A morte é um dia que vale a pena viver’, entre os mais vendidos no país.

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