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Negros apontam inclusão no mercado de trabalho como tema mais urgente

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No Brasil, uma mulher negra ganha menos da metade do salário de um homem branco, ou 44%, enquanto o homem negro ganha 56% deste mesmo total (pesquisa “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça”, publicada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — IBGE).

A desigualdade também mata, diariamente, essa parcela da população: as negras são 58% dos feminicídios e, a cada 23 minutos, um jovem negro morre no país.

Esses são apenas alguns dados que justificam o panorama traçado por uma pesquisa do Google lançada nesta segunda-feira, 18, realizada pela consultoria Mindset-WGSN e pelo Instituto Datafolha, que levantou os temas mais urgentes e as pautas mais discutidas pelos negros brasileiros.

Segundo o estudo, intitulado “Consciência entre urgências: pautas e potências da população negra no Brasil”, a inclusão no mercado de trabalho é a principal demanda desse grupo. Para 46% dos entrevistados, é necessária uma maior abertura para o negro entrar nas empresas.

No entanto, o tema do mercado de trabalho é menos discutido do que deveria, o que o coloca em segundo lugar quando o recorte é o debate — ficando atrás de racismo estrutural e institucional. De acordo com o Google, pretos e pardos representavam 65% dos desempregados no Brasil no levantamento do IBGE de 2018.

A pesquisa do Google, que envolveu uma fase qualitativa e outra quantitativa em outubro de 2019, ouviu 1.225 pessoas autodeclaradas pretas em todas as regiões do país. No caso da qualitativa, a empresa realizou sete entrevistas com especialistas, entre sociólogos, filósofos e historiadores, três grupos de entrevistados pardos nos seguintes estados: Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro, além de conversas com seis YouTubers.

O estudo também questionou a percepção das pessoas sobre o Dia da Consciência Negra, que acontece nesta quarta-feira, 20 de novembro. Para 91% do total, a data é importante para manter vivos na memória heróis e heroínas negros. Outro dado é que o dia tem maior importância para classes mais baixas, já que 85% dos entrevistados de classes D e E concordam que a data é momento de luta, enquanto no caso das classes A e B este número é de 72%.

São Paulo, Brazil – May 28, 2016: Protesters in action for the rights of gay women and the end of the coup d’etat in the country
© FernandoPodolski / iStock São Paulo, Brazil – May 28, 2016: Protesters in action for the rights of gay women and the end of the coup d’etat in the country

Racismo estrutural e institucional

O racismo estrutural e institucional ficou em segundo lugar de urgência no levantamento, com 44% de necessidade. Na parcela de jovens entre 16 e 24 anos, o tema é 1,7 vez mais importante do que para idosos acima de 60 anos. A análise do Google constatou que 7 entre 10 negros no país não se sentem representados pelos governantes. 73% dos entrevistados das classes D e E consideram mais importante votar em candidatos negros do que as classes A e B, com 47%.

Feminismo negro

Logo depois da inclusão no mercado de trabalho e da luta contra o racismo aparece o feminismo negro como pauta essencial para essa população, com 27% de urgência, o que mostra ainda mais a necessidade de debater a violência de gênero com recorte para as mulheres negras. Quanto maior a escolaridade, menor é a urgência do feminismo: 30% do ensino fundamental consideram o tema urgente, 29% do ensino médio e 18% do ensino superior.

Genocídio da população negra

O genocídio da população negra é uma pauta mais urgente entre os jovens que têm entre 16 e 34 anos, 28%, do que para idosos acima de 60 anos, 18%. Quanto maior a escolaridade, maior é o sentimento de necessidade em relação ao assunto: no ensino superior, é de 30%, no médio de 26% e, no fundamental, de 14%.

Quanto maior a escolaridade, maior é o sentimento de urgência em relação ao genocídio da população negra
© luizsouzarj / iStock Quanto maior a escolaridade, maior é o sentimento de urgência em relação ao genocídio da população negra

Políticas afirmativas

Em quinto lugar, aparece a questão das políticas afirmativas. A preocupação com a existência dessas políticas é maior entre homens, 23%, do que entre mulheres, 17%. Para os participantes, o nível de discussão em torno do tema é maior do que sua urgência no país.

Autodeclaração, ativismo e participação dos brancos

Outros temas que surgiram na pesquisa do Google foram a autodeclaração da população negra, o ativismo e a necessidade da participação dos brancos no processo de combate ao racismo.

Joyce Prestes, estrategista de conteúdo do Google Partner Plex, ressaltou que há uma dificuldade da população para se reconhecer como “preto”, termo usado pelo IBGE atualmente. Segundo a análise, 69% dos participantes se declararam como pardos e apenas 31% se identificaram como pretos. Ao serem questionados se eram negros, o número teve alteração: 46% se declararam como negros e 54%, pardos. Os 26% que haviam se declarado como pardos passaram a se identificar como negros.

A questão da classificação é resquício de um processo histórico de racismo. “Durante toda a nossa história, os brancos [os portugueses] tentaram explicar para a população negra o que ela é. E isso foi o que gerou o sistema de classificação por cor. Essa confusão ocorre porque veio ‘de fora para dentro’”, afirma Rodrigo Maceira, gerente de marketing de conteúdo do Google.

Na questão do ativismo, os mais pobres aparecem como os mais engajados. Embora metade dos entrevistados no geral se considere ativista do movimento negro no Brasil, nas classes D e E este número sobre para 60%, contra 31% das classes A e B.

Um outro assunto que chamou atenção dos responsáveis pelo estudo, tanto na parte qualitativa quanto na quantitativa, foi o debate sobre a participação das pessoas brancas no processo de combate ao racismo.

“O assunto da branquitude apareceu não no lugar de ‘eles precisam ajudar a gente a resolver isso porque não conseguimos sozinhos’, mas muito no lugar de ‘esse problema não foi criado por nós, a gente está ajudando eles a resolver, então eles precisam fazer parte dessa conversa’”, explica Joyce.

De acordo com o levantamento, 78% dos entrevistados são a favor da participação de pessoas brancas na luta contra o racismo, 59% deles entendem que os brancos devem se envolver porque eles fazem parte desse problema e 87% acham que a luta não é exclusivamente dos negros.

“Aqui vale a gente pontuar que não é o branco que vai me salvar ou resolver este problema, é a resolução do problema no lugar de quem o criou”, finaliza a estrategista de conteúdo.

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