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Mil dias de pandemia: história de quem nasceu no 1º dia – 05/12/2022 – Equilíbrio e Saúde

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Mil dias de pandemia: história de quem nasceu no 1º dia - 05/12/2022 - Equilíbrio e Saúde


Gabriel não pega na mão de ninguém, só cumprimenta com soquinhos. Emanuelle lambuza todos ao redor com álcool em gel. Nicolas já passou por sufocos de saúde, e os pais tiveram de se perguntar: será que levá-lo a um hospital empesteado com este novo coronavírus não é mais arriscado?

O trio nasceu num dia que o mundo preferia que nunca tivesse existido. Filhos do 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial da Saúde decretou uma pandemia que só no Brasil já fez 690 mil vítimas, eles completam nesta terça (6) seus primeiros mil dias, até aqui vividos 100% sob a maior crise sanitária do século.

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Ainda não é de todo mensurável o impacto a longo prazo de crescer sob o lastro da Covid-19, mas uma coisa é certa: especialistas não estão otimistas, principalmente devido à falta políticas públicas para resolver o problema.

As sequelas da pandemia vão muito além do dano provocado pelo vírus, aponta Marina Fragata Chicaro, diretora de conhecimento aplicado da FMCSV (Fundação Maria Cecília Souto Vidigal). A entidade divulgou em setembro pesquisa que mostra piora de indicadores em áreas cruciais para a primeira infância (0 a 6 anos).

Os reveses podem ter atingido todas as faixas sociais, mas os lares mais pobres sentiram mais. Exemplo: muitos filhos das classes mais baixas dependiam do ambiente escolar para ter uma boa nutrição.

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De 2019 a 2021, as creches públicas e privadas perderam 338 mil matrículas. Ficaram fora da educação infantil em 2021, que contempla também a pré-escola, 1,04 milhão de crianças.

Uma alimentação de má qualidade é sempre nociva, mas o prejuízo é maior nesse início. O cérebro de um recém-nascido pesa cerca de 350 gramas e triplica de tamanho no primeiro ano de vida. O ritmo de crescimento desacelera bastante até a fase adulta, quando estaciona na média em 1,5 kg.

É o começo da vida, portanto, que dá a base para quem seremos. Tudo o que fazemos hoje no automático —falar, andar, ler esta reportagem— depende desse processo.

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Basta lembrar da facilidade com que os pequenos aprendem uma língua nova, justamente porque estão formando fundamentos que o acompanharão por toda uma vida. Neurocientistas falam em arquitetura cerebral e comparam: construir um cérebro é como construir uma casa.

Gabriel Gama, quase 3 anos, se esconde atrás das pernas da mãe quando encontra pessoas com quem não tem intimidade. No shopping, caiu no choro e correu do Papai Noel. Preferiu tirar foto com bonecos imóveis do desenho Baby Shark.

Os pais suspeitam que uma timidez que até já podia ser dele se agravou por causa do contato reduzido com outras pessoas, sobretudo no primeiro ano pandêmico. “Gabriel só socializava comigo e com a Taysla”, diz Alex Gama, 40. “Ele começou a enxergar que tinha um mundo lá fora perto de um ano, foi criado dentro de casa. Hoje ele é feliz, porém demora para se entregar.”

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Tasyla Santiago, 28, conta que o filho estranha até mesmo o pai dela, que viu pouco. “Gabriel se zanga quando o avô encosta pra falar”, diz ela, que toca com Alex uma produtora audiovisual em Serrinha (BA).

A pandemia desencadeou em muitos lares um “estresse tóxico” capaz de alterar o cérebro, diz o pediatra e sanitarista Daniel Becker. “Uma lesão mesmo, que atrasa o desenvolvimento.”

Muitos bebês ganharam oportunidade ímpar de ter mais tempo com pais confinados em home office. A princípio, um ponto positivo. Mas em que condições?

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Becker observou um “convívio com pais extremamente angustiados, assustados, sobrecarregados, com medo de todos os tipos de perda, de ficar doente, de morrer, de deixar o filho sozinho, de perder o sustento”. A tensão no ambiente doméstico reflete nas crianças, mesmo as mais pequenas, afirma.

Seus pacientes apresentaram um arco amplo de problemas psicossomáticos. Retenção ou incontinência urinária, cefaleia, birras exageradas, sonolência ou insônia. Alguns recuaram casas do desenvolvimento, como quem já usava privada e voltou às fraldas. O terror noturno, que faz a criança acordar de repente aos berros, veio com tudo.

Um caso marcou Becker. João um bebê saudável até meados de 2020. “Com um ano e meio, começou a me preocupar com sinais de atraso no seu desenvolvimento.”

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Balbuciava um tatibitate monótono. Não atendia se o chamassem pelo nome. Pouco olhava nos olhos e sorria quase nada.

Os pais contaram que estavam fechados em casa e haviam perdido a rede de apoio. Com os dois trabalhando de casa, o menino passava até seis horas por dia em frente a uma TV. Com pouca ajuda em casa, a mãe apelou para biscoitos, nuggets e miojos.

O pediatra desconfiou de Transtorno do Espectro Autista. Mas decidiu testar uma intervenção pesada antes. A família zerou a televisão para João, e uma avó que veio em socorro passou a levá-lo todos os dias para uma pracinha. Alimentos ultraprocessados caíram fora da dieta.

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Com dois anos e meio, João está falante e sorridente. Agora vai à escola, um ponto importante de socialização do qual muitas crianças foram privadas na quarentena. O Brasil é um dos países que fechou a rede escolar, sobretudo a pública, por mais tempo.

E dá-lhe TVs e tablets para os pais administrarem a prole ociosa em casa. “Excesso de telas vicia, torna a criança passiva, o cérebro dela desligado”, diz Becker.

Emanuelle Nazario Lima gosta muito de Peppa, o desenho da porquinha. Também a TV foi um recurso para a reclusão do início da vida, conta sua avó, Flavia Nazario Silva, 43. O primeiro aniversário, de tema Magali, foi um bolinho só com pais e avós.

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Flavia lembra do olhar triste que a filha lhe lançou ao descobrir que ela não podia estar na hora do parto, no Hospital Federal de Bonsucesso, no Rio. Era o dia um da pandemia.

Em outro canto da cidade, nascia Nicolas Moura Nardone. Ele vive com os pais, a profissional do marketing Nathalia Moura, 33, e o professor de dança Juan Pablo Nardone, 43, num condomínio arborizado com brinquedoteca, piscina e parquinho. Por ali mesmo, tinha aula de música e interagia com gente da idade dele.

A estrutura amorteceu os efeitos de uma vida enclausurada, mas nem por isso a infância de Nicolas passou perto do que teria sido sem uma pandemia. A avó paterna, argentina, ele só conheceu com dois anos e meio. Teve ainda os sustos hospitalares.

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No primeiro, Nicolas tinha seis meses, e o país já acumulava 140 mil mortes por Covid-19. A mãe comeu banana amassada com pasta de amendoim, depois amassou outra banana pro filho, que iniciava a introdução alimentar.

Os resquícios de amendoim no prato bastaram para desencadear uma reação alérgica braba. Nathalia era orientada pela pediatra a só ir na emergência em último caso. Era o último caso. Viu o filho receber uma injeção de adrenalina administrada por uma equipe médica toda de máscara.

Nicolas já tinha feito um ano, e o Brasil se aproximava do meio milhão de vítimas, quando recusou o suco de melancia que tanto amava. Nem mamar queria. Bronquiolite. Nova internação, agora com um quadro respiratório grave.

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Com medo da Covid-19, muita gente colocou em segundo plano os cuidados com a saúde. O levantamento da FMCSV, por exemplo, aponta queda de cobertura, entre 2019 a 2021, nas dez vacinas específicas dos primeiros anos de vida. A da poliomielite caiu de 84% para 69%.

Outro ponto crítico: despencaram denúncias de violência contra crianças, e não pelos motivos certos. Foram quase 40% a menos em abril e maio de 2020, meses de intenso isolamento social, em relação ao período do ano anterior. Muitas violências, como a sexual, acontecem em casa e são percebidas por educadores. Sem escola, a subnotificação aumentou.

Estudos revelam que, nos países que negligenciaram a primeira infância, os gastos com saúde se multiplicaram na população adulta, e a economia perdeu bilhões de dólares. A pandemia alavancou esse fosso social, diz Naercio Menezes Filho, diretor do Centro Brasileiro de Pesquisa Aplicada à Primeira Infância, do Insper.

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O auxílio emergencial evitou que um número maior de lares com crianças entrasse nas condições de pobreza e extrema pobreza, mas ainda assim há desvantagem para pais pobres e negros. Eles sofreram mais com desemprego e queda de renda, e isso impacta a fase em que os pequenos constroem circuitos cerebrais essenciais para se tornarem adultos prósperos.

“Muito pai mais rico contratou um cuidador, um professor para interagir com o filho. Se não tiver política pública para atenuar esse efeito, [o dano] vai repercutir pelo resto da vida”, afirma Naercio.

E não dá para “ser determinista”, diz Chicaro, da FMCSV. “Agora é dever do Estado, da família, de todos nós, provermos o direito que essa criança não acessou.”

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Esta reportagem recebeu apoio do programa “Early Childhood Reporting Fellowship: Desigualdade e Covid-19 no Brasil e América Latina”, do Dart Center for Journalism and Trauma, da Columbia University

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