Siga-nos nas Redes Sociais


Publicado

dia:

Aparecida Maria Antônia Inocêncio é trabalhadora da educação aposentada, mas nunca deixou de ser educadora. Pariu 08 filhos, tem 12 netos e 04 bisnetos de sangue, e é avó de uma quebrada inteira. Pelo bairro do BNH, no Grajaú (Extremo Sul de São Paulo), é comum pedirem bênção pra “Vó Cida”. 

No trajeto até o “bar dos professores”, onde ela pediu pra gravar a entrevista, entre um gole e outro de cerveja a mulher de 72 anos lembrava dos perrengues e conquistas que viveu nas últimas quatro décadas desde que chegou ao fundão da periferia – da ditadura que silenciava moradores às rodas de samba que deram origem à primeira agremiação local a desfilar no Carnaval paulistano.

Cidona é a personagem do terceiro episódio de “Matriarcas”. Idealizada pela escritora e professora Lucimeire Juventino e realizada pela Periferia em Movimento, nesta série de reportagens contamos histórias de mulheres que cavaram os alicerces de lutas por direitos que continuam fortes até os dias de hoje.

Saiba mais sobre a história de Cidona

Filha adotiva, Cidona nasceu em 1947 e cresceu no bairro do Bom Retiro (Centro de São Paulo) até os 18 anos. Já casada e com filhos, passou alguns anos em Itaquera (zona Leste), além de viver por um período na Freguesia do Ó (zona Noroeste). Em 1975, ela se mudou com a família para o Grajaú, no Extremo Sul de São Paulo.

Como a própria Cidona conta, nessa época o “fundão” não tinha nada: faltavam lojas, quitandas, padarias… Havia poucas escolas, o transporte era feito por poucos ônibus esburacados da viação Sete de Setembro e as ruas não eram asfaltadas. Com a construção da COHAB Brigadeiro Faria Lima (bairro hoje conhecido como BNH), uma caixa d’água passou a abastecer os moradores de forma racionada – só tinha água disponível das 08h às 10h e das 17h às 20h.

Em 1976, a Prefeitura de São Paulo inaugurou a EMEF Joaquim Bento Alves de Lima Neto e Cidona começou a trabalhar como agente escolar perto de casa. Como funcionária pública, ela se articulou com movimentos de educação, conheceu a ex-prefeita Luiza Erundina e trabalhou no gabinete de secretários responsáveis pela pasta na gestão da ex-prefeita – os educadores Paulo Freire e Mario Sérgio Cortella.

Foram 37 anos de dedicação ao serviço público, muitos deles ainda sob a ditadura militar. As crianças brincavam pra fora do portão, mas após às 20h quem estivesse na rua precisava andar com a carteira de trabalho assinada pelo empregador. “Hoje, você mostra o RG pra polícia e é liberado”, diz ela.

Foi nessa época também que Cidona se divorciou do marido, um tabu para época, e passou a cuidar sozinha dos 08 filhos – 05 deles ainda vivos. Nas dificuldades, levava os filhos com ela para o trabalho, contava com apoio de amigas e hoje seu matriarcado se estende sobre 12 netos e 04 bisnetos.

Mas todo mundo tem um laço com ela, mesmo que não seja de sangue: na quebrada, ela é conhecida como “vó Cidona”. E essa vida na comunidade coroa Cidona. Entre uma cerveja e outra, ela se lembra de quando apelidou de “Buracanã” um campinho de futebol de várzea próximo de onde hoje ocorre o famoso Pagode da 27 – uma das rodas de samba que ela frequenta para matar a saudade dos tempos da Flor Imperial do Grajaú, primeira escola de samba da região, na qual ela desfilava e participava da gestão cotidiana.

E assim, no sapatinho, ela samba na avenida da vida.

Fonte: http://periferiaemmovimento.com.br/matriarcas-cidona/

Texto por Thiago Borges. Idealização: Lucimeire Juventino. Reportagem, roteiro e edição: Evelyn Arruda, Lucimeire Juventino, Pedro Ariel Salvador e Wilson Oliveira.

Clique e Comente

Você precisa estar logado para postar um comentário Entrar

Deixe uma resposta

Publicidade

Siga-nos no Facebook

Mais Lidas

Copyright © 2019 Grajaú News. Notícias do Extremo Sul de São Paulo. Não nos responsabilizamos pelo conteúdo de sites externos citados. As publicações são de exclusiva responsabilidade dos autores e os comentários publicados nas matérias não representam a opinião do Portal. Contate-nos: [email protected]