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Lygia Clark inspira monólogo em que público deita no divã – 15/05/2022 – Ilustrada

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Lygia Clark inspira monólogo em que público deita no divã - 15/05/2022 - Ilustrada

No hall de entrada, pinturas geométricas, armações dobradiças e estruturas que unem metal a troncos de madeira dão uma prévia do neoconcretismo que pulsa ao lado, num espaço escondido por uma divisória de tiras pretas. Ao atravessar o feixe elástico, vemos, então, a galeria Bolsa de Arte, de São Paulo, se transformar pela primeira vez num teatro.

Na sala, uma mulher sentada numa poltrona segura conchas do mar sobre seus ouvidos. “Eu já morri, mas vocês são bem-vindos aqui, na minha cabeça”, diz ela, depois de alguns instantes encarando o público e dá início a “Lygia”.

Em cartaz até 28 de maio, o monólogo é uma imersão em dezenas de diários e cartas de Lygia Clark, com relatos de reflexões e desesperos da mineira, consagrada como uma das maiores artistas brasileiras —ainda que ela mesma se definisse como uma “não artista”.

Com direção de Maria Clara Mattos e Bel Kutner, “Lygia” aproxima o público da intimidade da artista num cenário repleto de elementos que remetem às obras de sua linha orgânica —em superfícies que destacam fendas, dispensam molduras e flertam com o sensorial—, escrita inquieta, espaços

sulcados —de planos expandidos— e ao seu método experimental de terapia, a “Estruturação do Self”, em que ela convidava pacientes a usar a arte como cura.

Depois de estrear em 2019, no Rio de Janeiro, a peça, estrelada por Carolyna Aguiar, está de montagem nova, com roteiro mais enxuto —de 70 páginas do texto original, só 20 permanecem— e formato mais interativo, encenado ao lado de uma exposição homônima.

Tal como propunha Clark em sua carreira, o espectador também compõe a obra, e é essencial para o espetáculo. Exemplo disso é quando alguém do público é convidado a sentir um gostinho das sessões de self, se deita num colchão de plástico cheio de bolinhas de poliestireno, onde estoura sacos plásticos e tateia objetos como almofadas de areia, bolas de pingue-pongue e tubos de borracha.

Foi justamente a “Estruturação do Self”, aliás, que inspirou o monólogo, anos atrás, quando Aguiar fez sessões do método e, desde então, passou a mergulhar no legado de Clark. Além da peça, a atriz se inspirou nas suas obras para a instalação performática “DSÍ-Embodyment”, em 2016, ao lado de Ana Vitória, trabalhando o corpo enquanto uma tela viva.

“Lygia se definia como um escorpião, porque, assim como ele, de tempos em tempos tirava sua casca”, diz Aguiar. “Ela vivia com o corpo queimando sob o sol até que formasse uma casca nova.”

A atriz explica que antes de ter contato com os diários de Clark não imaginava que a estrela do neoconcretismo fosse tão alinhada à escrita —lado da artista que poucos conhecem, segundo Aguiar.

Na peça, porém, as palavras desses cadernos são o grande norte do monólogo, que repete as falas dos documentos e traz estruturas como os “Bichos” para contar a história da artista. Mas tudo com significado diferente da primeira montagem, afirma Aguiar.

“Reencenar ‘Lygia’ no pós-pandemia traz outra compreensão dos espaços solitários de que Lygia tanto falava”, diz a atriz. “Ela dizia que ‘todos somos mortalhas de si mesmos’ e talvez estejamos vivendo isso exatamente agora.”

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