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Jovem viaja o mundo para contar a história de mulheres com câncer

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Jovem viaja o mundo para contar a história de mulheres com câncer

Reprodução/ Além da Cura

A websérie “Além da Cura” foi ao ar em 2015, no YouTube

Bruna Monteiro é natural de Pernambuco e logo na adolescência ela aprendeu sobre o poder que a comunicação tem de transformar a vida das pessoas. No entanto, foi aos 20 anos, motivada pelo diagnóstico do câncer de um amigo próximo, que ela decidiu largar o emprego e criar a websérie chamada “Além da Cura”, com o objetivo de contar a história de mulheres que estão lutando contra o câncer. 

Nessa conversa com o IG Delas
, Bruna fala um pouco dos bastidores desse projeto, como foi o processo de criação e os momentos mais marcantes para ela,“… a gente acredita que a comunicação emociona e ao emocionar ela transforma”. 

IG DELAS: Como surgiu a ideia de criar esse  projeto?

Bruna Monteiro:
Hoje eu tenho trinta anos, mas essa história começou muito antes. Quando eu tinha 17 anos, era estudante de uma escola pública em Pernambuco e nela eu acabei ganhando um prêmio de audiovisual, o que me permitiu viajar para os Estados Unidos, para fazer um curso de audiovisual. Na época eu nem sabia falar inglês, mas mesmo assim eu fui, incentivada pela minha professora. Foi com essa primeira experiencia que eu vi que o audiovisual poderia mudar a minha vida. 

Aos 19 anos, com duas amigas da faculdade, fizemos um video de denúncia sobre o mal uso da praça adotada por uma empresa daqui do Recife. A empresa deveria cuidar daquele local, mas, na verdade, a praça tinha sido transformada em um estacionamento. Com as minhas amigas, produzimos um vídeo de denúncia e colocamos na internet, em dois dias já tinha mais de 26 mil visualizações. A nossa denúncia tinha viralizado e com ela  a empresa tinha sido multada, novamente eu vi a força do audiovisual, não só na minha vida, mas na de outras pessoas. 

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Entretanto, aos 20 anos a minha vida mudou e eu comecei a pensar no projeto de contar a história de mulheres com câncer. Nesse mesmo período, eu estava na faculdade de jornalismo e um dos meus amigos foi diagnosticado com câncer. Eu não sabia como lidar com a doença dele e, pior, eu não sabia como lidar com o meu amigo. 


Mulher de cabelos lisos, na altura dos ombros, usando uma camiseta branca
Divulgação

Além da websérie “Além da Cura”, Bruna Monteiro também publicou o livro “O peso do Vento”

Provocada por uma das minhas professoras da faculdade a fazer algo com esse momento que estava vivendo, eu escrevi o livro “O Peso do Vento”. Nele eu entrevisto e conto a história de mulheres com câncer em Pernambuco. As pessoas começaram a me dizer como seria legal estender essa ideia para outras regiões. Assim, com apenas 20 anos eu me demiti do meu trabalho e dei inicio ao meu projeto. 

IG DELAS: E como foram os preparativos? Como você conseguiu financiamento? E como encontrou essas mulheres? 

Bruna Monteiro:
Para conseguir o dinheiro, eu acabei recorrendo a um financiamento coletivo na internet, eu dizia ‘vocês acham que o câncer é um tabu e que deveria ser quebrado, apoie a gente’; com isso duas mil pessoas nos apoiaram. Em paralelo a essa vaquinha online, eu também continuava trabalhando como  freelancer de fotografia, para conseguir complementar os custos. 

Além disso, a gente ficava em casa de pessoas que eram voluntárias de ONGs, elas nos recebiam e nos ajudavam a entrar em contato com mulheres com câncer. Nós também conseguimos fazer parcerias com ONGs ao redor do mundo todo, por isso, quando chegávamos a um país, uma das nossas ONGs parceiras indicava mulheres para as entrevistas. 

IG DELAS: E você acabou passando por perrengues durante as viagens? 

Bruna Monteiro:
Acredito que o que foi o mais diferente para mim foi estar viajando sozinha. Eu até tinha a Sthefany, que viajava às vezes comigo, mas na maior parte do tempo eu estava só. Era encantador perceber como as pessoas criavam uma conexão verdadeira através de uma causa em comum. Como eu falei anteriormente, eu ficava muito hospedada na casa das pessoas e eu não acreditava na tamanha alegria e empatia com que eles nos recebiam. Isso era muito bacana. 

Outra coisa que me impactou muito também foi o choque cultural, principalmente na Índia, foi um frande exercício de humildade. Ao chegar à Índia, eu pensava que todas as pessoas estavam agindo ao contrário, inclusive a percepção que as pessoas tinham sobre mim, também foi algo que me chamou muito a atenção. Na Índia eu era confundida com indiana, na África do Sul e no Kenyan eu era branca, mas já na Europa eu era latina. 

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Ao entrevistar mulheres com câncer ao redor do mundo todo, a gente percebe algumas diferenças culturais na forma de se relacionar com a doença. Como uma vez na África do Sul, em que eu ouvi que uma das mulheres não poderia estar com câncer, porque câncer é uma doença de pessoas brancas. Enquanto aqui no Brasil, em Pernambuco mesmo, já me disseram que a causa do câncer eram as tatuagens. Existe tanta falta de informação em alguns lugares que chega a ser doloroso. 

Bruna durante a sua visita a Índia, onde ela ficou hospedada em casa de voluntárias
Reprodução/ Além da Cura

Bruna durante a sua visita a Índia, onde ela ficou hospedada em casa de voluntárias

Além disso, mesmo em diferentes culturas, a solidão, durante o enfrentamento da doença, é muito grande, as mulheres são abandonadas por seus companheiros quando ficam doentes e isso atravessa culturas. Eu conversei uma vez com uma mulher muçulmana e ela me disse que para ela era muito mais fácil enfrentar o câncer por causa da burca, ela não podia parar a rotina dela e com a roupa cobrindo os cabelos, ninguém saberia que ela estava doente. 

Mas eu também aprendi muito, como na África do Sul, eu perguntei para uma das entrevistadas como era viver num país que tinha 11 línguas oficiais e ela não entendeu a minha pergunta e me perguntou quantas línguas oficiais têm no Brasil e eu respondi, “Uma apenas, o português” e ela me respondeu, “Nossa, então quer dizer, que em um país inteiro como o Brasil só tem uma única língua oficial? E é a língua do colonizador?”. 

Às vezes a gente acha que os outros são o diferente, mas não olhamos para o próprio umbigo. Como o Brasil, um país enorme, tem apenas uma língua? E ainda a língua do colonizador?  E eu acho estranho África do Sul ter 11 línguas oficiais? Isso é o que deveria que ser o normal.

IG DELAS: De todas as histórias que você ouviu, quais foras as suas favoritas e que mais te marcaram? 

Bruna Monteiro:
Acho que umas das pessoas que mais me marcaram foi a Desiree, que é uma alemã. Ela me marcou porque ela contou que se sentiu ouvida por mim, mesmo sem eu entender alemão. Também teve a Karina, da Argentina, ela descobriu o câncer em meio do processo de adoção da filha e na mesma época que ela recebeu o diagnóstico da cura ela conseguiu oficializar a adoção da filha dela.  Essas mulheres que enfrentam essas doenças têm uma história de antes e depois da doença, tanto que o projeto se chama Além da Cura. A gente acha super importante compartilhar essas histórias para levar esperança e informação a outras pessoas. Porque a gente acredita que a comunicação emociona e ao emocionar ela transforma, por isso a Karina foi uma parte muito tocante para mim, eu nunca me esqueço.

IG DELAS: Você está trabalhando em um novo projeto no momento?

Bruna Monteiro:
Depois de viajar o mundo todo, eu comecei a perceber a força dentro da comunicação para ajudar outras causas. Hoje eu tenho a Ganda Lab Criativo, que é uma agência de marketing e uma plataforma de empregabilidade para pessoas LGBTQIA+, em que a gente faz campanhas de comunicação conscientes. Graças a esse novo projeto, em junho mesmo, eu estava nos Estados Unidos, fazendo uma imersão com outra empresa de marketing. Hoje, na Ganda, a gente faz diversas campanhas, não só sobre câncer, mas também sobre saúde menstrual, primeira infância, saúde mental, entre outros temas. A gente continua nessa missão de usar a comunicaçã como uma ferramenta de transformação, por um mundo mais igualitário. 

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