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Fotógrafo registra calor dos corpos de doentes de Covid usando uma câmera térmica

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – No primeiro dia do confinamento imposto pela pandemia em Paris, um vulto alaranjado solitário pega uma escada rolante que leva ao nada. Semanas depois, uma caveira espera o tempo passar num hospital de Bordeaux para saber se vai viver ou morrer. Do outro lado do oceano, um homem enrolado num cobertor devora uma marmita numa rua no centro de São Paulo.

Seus corpos são quentes, emitem luz, mas nenhum têm fisionomia ou traço físico discernível —são fantasmas num mundo amedrontado por um vírus.

Munido de uma câmera térmica, nos últimos dois anos o fotógrafo francês Antoine D’Agata registrou o drama da pandemia em hospitais franceses e cariocas, além de ruas do centro de São Paulo. Suas imagens não se parecem com fotos documentais, dado que o aparato que usou, um pequeno aparelho acoplado a um iPhone, não capta imagens definidas, mas sim os contrastes entre as áreas de calor.

Tons quentes, como laranja e vermelho, indicam calor e, portanto, vida; tons frios, como azul e violeta, refletem objetos frios, inanimados, como as luzes de hospitais.

O resultado desse trabalho pode ser visto agora em exposições na Praça das Artes e na galeria Lume, em São Paulo, e no Parque Lage, no Rio de Janeiro. “Certamente falta informação nestas imagens, elas são um pouco abstratas e muito pictóricas, mas mostram melhor outras coisas, que não vemos com os olhos. Elas mostram as intensidades. É uma leitura diferente da realidade, que abre espaços de interpretação”, ele afirma, numa entrevista na sede de sua galeria paulistana.

Nas imagens de pessoas circulando pelas ruas, vemos a essência dos corpos, ele diz. Nas fotografias de hospitais, estão ausentes as fezes ou o sangue dos enfermos —com a abstração de detalhes, o que resta nos registros é a maneira pela qual as pessoas se aproximam umas das outras.

A pandemia foi mais uma situação extrema na carreira do artista. D’Agata, de 60 anos, lida em suas imagens e filmes com o que classifica de excessos, como o vício em drogas, a prostituição, encontros sexuais e a vida noturna em geral. Ele estudou fotografia com Nan Goldin e Larry Clark —referências desse tipo de imagem— em Nova York, no início dos anos 1990, antes de estagiar na agência Magnum, onde acabou incorporado ao time de fotógrafos.

D’Agata conta sempre ter preferido mirar suas lentes para territórios esquecidos, negligenciados, e que registrar a pandemia era uma questão quase existencial, uma escolha política de estar perto da violência e de não viver a emergência sanitária pela televisão.

Uma de suas preocupações era registrar o aspecto político e social da crise. Por isso, na galeria Lume há fotos de ruas vazias e pessoas solitárias em estações de trem, retratos de travestis e mulheres transexuais acolhidas pela Casa Florescer, em São Paulo, e também imagens feitas na praça Princesa Isabel e numa ocupação próxima, ambas no centro da capital paulista.

A maior parte das fotografias dentro de hospitais, com os doentes presos aos tubos dos respiradores em imagens que lembram radiografias, está na Praça das Artes. São impressões sobre lona em grandes dimensões.

O fotógrafo conta que, conforme a pandemia se desenrolava, os hospitais se tornaram lugares de conforto apesar da tragédia, já que fazia bem para ele ter contato com os doentes e os profissionais de saúde. Ele passou temporadas de uma semana em dois hospitais franceses e, no Rio de Janeiro, teve acesso à Fiocruz e ao hospital universitário Clementino Fraga Filho.

Por outro lado, embora Paris vazia fosse “sublime e uma experiência inacreditável”, segundo ele, fotografar na rua ficou cada dia mais duro e solitário, à medida que a paranoia das pessoas aumentava.

Esta é a segunda vez que D’Agata usa uma câmera térmica. A primeira foi logo depois dos atentados terroristas no Bataclan, em 2015, momento no qual registrou práticas religiosas como funerais, missas na catedral de Notre-Dame e grupos de muçulmanos se dirigindo a uma mesquita. Para esse trabalho, conforme conta num vídeo disponível no site da Magnum, ele ficou mais à margem, nas beiradas, em vez de ser um personagem da história que se propunha a investigar, seu método habitual de fazer artístico.

“Sempre tenho medo, mas é por isso que eu faço”, ele diz, respondendo a uma pergunta sobre se tinha receio de pegar Covid num momento em que não havia vacina e máscaras de proteção eram escassas. A busca dessa sensação vale para o trabalho do artista como um todo. “Posso trabalhar num contexto sexual ou narcótico, mas preciso estar numa posição não de força ou de controle, mas de fragilidade e empatia.”

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PSICODEMIA

Quando: Seg. a sex., das 10h às 19h, sáb., das 11h às 15h. Até 26/6

Onde: Galeria Lume, r. Gumercindo Saraiva, 54, São Paulo

Preço: Grátis

PSICODEMIA

Quando: Seg. a sáb., das 7h às 22h. Até 1º/7

Onde: Praça das Artes, av. São João, 281, São Paulo

Preço: Grátis

VÍRUS

Quando: Seg. a dom., das 9h às 17h. Até 19/7

Onde: Escola de Artes Visuais do Parque Lage, r. Jardim Botânico, 414, Rio de Janeiro

Preço: Grátis

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