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‘Escolas-conceito’ para a classe C crescem na crise – 16/08/2022 – Educação

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'Escolas-conceito' para a classe C crescem na crise - 16/08/2022 - Educação

Escolas particulares que oferecem as chamadas metodologias inovadoras com mensalidades abaixo de R$ 1.000 começaram a surgir há cerca de cinco anos em São Paulo com a expectativa de atrair estudantes da rede pública. Com a pandemia de Covid e a crise econômica no país, no entanto, acabaram crescendo graças a um outro público, o de famílias que, antes da piora no cenário, podiam pagar colégios mais caros, acima de R$ 1.000 ou até de R$ 2.000, mas perderam renda e tiveram de reduzir os custos.

Já uma boa tarde dos estudantes que haviam conseguido migrar de escolas públicas para essas particulares entre 2018 e 2019, época em que foram inauguradas, tiveram de regressar ao ensino gratuito a partir de 2020, diante dos impactos da pandemia.

A Escola Mais, por exemplo, que se destaca nesse segmento da educação privada, tinha, em 2019, cerca de 15% dos alunos egressos de escolas públicas, e o plano dos sócios era de ampliar essa participação ao longo dos anos. A partir de 2020, contudo, essa proporção foi se reduzindo e atualmente são apenas 5% dos matriculados.

“Antes da pandemia, nossos alunos, além dos egressos da rede pública, eram aqueles que vinham de escolas do mesmo bairro com mensalidades semelhantes às nossas ou até mais baixas”, diz José Aliperti, sócio-fundador e CEO da Escola Mais. “Depois de 2020, ficou mais comum recebermos estudantes de escolas mais caras, alguns que pagavam até mais do que o dobro da nossa mensalidade. E 90% dos alunos que perdemos nesse período saíram por dificuldades financeiras.”

A Escola Mais cobra uma mensalidade de R$ 840 para o ensino semi-integral (das 7h30 às 15h30), com aulas de inglês todos os dias e um laboratório “maker” (“mão na massa”), em que os alunos também utilizam a língua inglesa enquanto fazem projetos que envolvem diferentes disciplinas.

Fazem parte da proposta educacional outras tendências da chamada pedagogia moderna, como aulas invertidas, nas quais os alunos é que ensinam, amplo uso de tecnologia (cada aluno tem o seu notebook, utilizado também na escola), interdisciplinaridade e aprendizado baseado em projetos.

O prédio da primeira unidade, na Penha, zona leste de São Paulo, foi projetado pelo renomado arquiteto Paulo Mendes da Rocha, morto no ano passado.

O negócio começou nesse espaço com cerca de 30, 40 alunos, em 2018. Em 2019, o prédio chegou à lotação, com 300 estudantes. O crescimento seguiu, apesar da pandemia, e atualmente são 4.100 alunos em sete unidades na capital paulista e uma em Joinville, Santa Catarina. No próximo ano, haverá a inauguração da Escola Mais do Ipiranga, em um prédio histórico, onde antes funcionava a Faculdade São Marcos.

A Escola Mais faz parte da Bahema Educação, empresa que vem adquirindo o controle de estabelecimentos de ensino da educação básica, entre os quais nomes tradicionais da classe A paulistana, como a Escola da Vila, no Butantã, a Viva, na Vila Olímpia, e o Colégio BIS/Brazilian International School, em Moema.

Ao todo, a Bahema tem hoje cerca de 14 mil alunos, e a Escola Mais foi o seu primeiro investimento na classe C.

Outro grupo que investiu no nicho de “escola-conceito” popular foi o SEB. Dono das redes Maple Bear e Pueri Domus, voltadas à classe A, lançou a Luminova em 2019 para atrair estudantes de escolas públicas. Com quatro unidades na capital paulista e 3.500 alunos, à época, mirava não só a classe C como também a D.

Antes da pandemia, eram 60% os alunos oriundos de escolas públicas e 40%, de particulares. O número se inverteu a partir de 2020. São agora, portanto, 60% os que vieram da rede privada, e houve inclusive aumento de egressos de colégios mais caros.

A mensalidade na Luminova custa R$ 720 para o horário regular e R$ 970 para o semi-integral (das 7h às 15h).

Na pandemia, o SEB lançou o sistema de franquias Luminova já considerando o novo público-alvo, de famílias que precisaram cortar custos. Hoje são seis escolas e há mais 11 contratos fechados para inauguração nos próximo anos, segundo a empresa.

Essa é uma posição estratégica no mercado privado de educação, defendem os investidores, pois as escolas mais acessíveis conseguem crescer tanto quando a economia melhora, captando alunos das escolas públicas, quanto na piora, absorvendo os de colégios mais caros.

“É uma posição de passagem entre o ensino público e o privado. Estamos no último degrau de valores antes que as famílias tenham de optar por uma escola pública”, diz Aliperti. E a expectativa de crescimento da empresa é ambiciosa: “Pretendemos chegar a 200 mil alunos em dez anos”.

A pandemia foi um período de perdas para as escolas particulares no Brasil, conforme mostrou o Censo Escolar de 2021. Ao todo, entre 2019 e 2021, a rede privada brasileira perdeu mais de 892 mil matrículas, a maior parte delas (66%) em creches e na pré-escola, fase em que o ensino a distância fazia pouco ou nenhum sentido. De acordo com os dados de 2021, o país tem 82,9% dos estudantes em escolas públicas (35,3 milhões) e 17,1% (7,2 milhões) na rede privada, da creche ao ensino médio.

O setor acredita que em 2022, quando as aulas retomaram 100% ao presencial, essa perda, ou ao menos boa parte dela, já tenha sido revertida, segundo Amábile Pacios, presidente interina da Federação Nacional de Escolas Particulares e eleita para a presidência da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação.

“Essa é a nossa percepção a partir do contato com os vários sindicatos de escolas nos estados. Acreditamos que o Censo Escolar de 2022 vá mostrar uma recuperação e até um aumento no número de matrículas no ensino privado”, afirma Pacios. Apesar da crise, defende ela, as famílias têm se esforçado ainda mais para conseguir colocar os filhos em escolas pagas em razão dos prejuízos ao aprendizado da pandemia.

No estado de São Paulo, o número de matrículas na rede privada cresceu 7,83% nos últimos dez anos (2012 a 2021), segundo um estudo do Sieeesp (Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo) com base nos censos escolares.

O crescimento no número de escolas foi o dobro, o que representa, portanto, uma perda de alunos para cada estabelecimento. Na média, em 2012, cada escola tinha 211,77 matriculados e, em 2021, esse número baixou para 200,86.

Se, na média, a redução pode parecer baixa, há casos de perdas acentuadas, aponta o sindicato.

No caso da educação infantil, especificamente, ressalta o estudo do Sieeesp, há uma “concorrência predatória aumentando ano a ano”. A média, em 2012, de 77,7 alunos por escola, caiu, em 2021, para apenas 49,33. A queda, superior a 36%, também é resultado do crescimento da oferta de vagas na rede pública de ensino.

Assim como na esfera nacional, há no mercado paulista de educação uma expectativa de recuperação pós-pandemia, apesar da crise econômica, segundo Benjamin Ribeiro da Silva, presidente do Sieeesp. “E as escolas que mais tendem a crescer são justamente aquelas voltadas às famílias das classes C,D e E, que têm o sonho de conseguir matricular e manter os filhos em escolas particulares”, afirma.

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