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Brasil corre risco de descontrole da dengue, dizem especialistas | Saúde

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Brasil corre risco de descontrole da dengue, dizem especialistas | Saúde

Reprodução: ACidade ON

Dengue: explosão de casos coloca Brasil em risco de descontrole da doença, afirmam especialistas

Os casos de dengue no Brasil aumentaram em 151,4% durante os quatro primeiros meses de 2022 em relação ao mesmo período do ano anterior, e já superam o número total de diagnósticos de 2021.

Os dados do último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde mostram que, até abril, foram registrados 757.068 casos prováveis de dengue no país, enquanto nos 12 meses de 2021 juntos foram identificados apenas 534.743. Em 2020, esse volume foi de 979.764, total que também deve ser ultrapassado neste ano se os casos continuarem no ritmo atual.

Especialistas ouvidos pelo GLOBO explicam que a falta de medidas de combate ao mosquito transmissor, o empobrecimento da população e o fato de a doença ser cíclica e provocar grandes ondas de três em três anos são fatores por trás do aumento. Eles reforçam que medidas, tanto do poder público, como individuais, precisam ser tomadas para que os números da doença voltem a patamares mais baixos.

A região com maior incidência de casos é a centro-oeste, com uma taxa de 1.171 diagnósticos a cada cem mil habitantes. Em seguida, estão a região Sul, com 635,6; a região Sudeste, com 277,7; a região Norte, com 176,1, e a Nordeste, com 149,1. No geral, a incidência no país é de 354,9 casos a cada cem mil pessoas.

As unidades federativas mais afetadas são Goiás; Distrito Federal; Tocantins; Paraná e Santa Catarina. O estado que mais relatou aumento em relação a 2021 foi o Tocantins, com um número de casos 1.666,2% maior. Em contrapartida, Roraima, Amazonas e Acre foram os únicos lugares em que houve redução dos casos.

“Temos tido uma desmobilização dos agentes públicos que faziam as campanhas corpo a corpo, educacionais, de ir aos locais verificar acúmulos de água, orientar a população sobre como evitar a reprodução do mosquito, e as pessoas relaxaram as medidas também porque tiraram o foco da dengue com a pandemia”,
pontua a professora do departamento de Virologia do Instituto de Microbiologia Professor Paulo de Góes, da UFRJ, Luciana Costa, como uma das causas do aumento.

Além disso, para a coordenadora do InfoDengue e pesquisadora da Fiocruz, Claudia Codeço, há um reflexo do número maior de brasileiros na faixa da pobreza no maior número de casos da doença. Segundo um levantamento realizado pela consultoria Tendências, entre 2012 e 2022, a quantidade de domicílios no país que integram as classes D e E aumentou de 48,7% para 51%.

“O empobrecimento da população pode estar relacionado à medida que as habitações ficam mais precárias, ficam com maior dificuldade de coleta de lixo, descarte, maior acúmulo de água. Então esses fatores todos podem aumentar a proliferação dos mosquitos e consequentemente os casos da dengue”
, afirma a especialista.

O professor do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG e coordenador do Instituto Nacional de Tecnologia em Dengue, Mauro Teixeira, acrescenta ainda que o fator cíclico da doença leva tradicionalmente a ondas maiores a cada três ou quatro anos.

Ele explica que isso acontece porque, quando há um grande número de pessoas infectadas, a população acaba atingindo um certo nível de imunidade para aquela mutação da doença, o que propicia ao menos os anos seguintes com números mais baixos. Em 2019, por exemplo, o país contabilizou 1.544.987 casos de dengue, no que teria sido a última grande onda antes da que o país vive hoje.

Métodos de combate à doença

As iniciativas para combater a dengue são voltadas exclusivamente para diminuir a reprodução do agente transmissor da doença, o mosquito Aedes aegypti, que é mais presente nos primeiros meses do ano devido ao calor. Para depositar seus ovos, o inseto utiliza água parada. Portanto, os métodos envolvem verificar lugares onde pode haver recipientes com líquidos, como caixas d’água abertas, vasos de plantas, garrafas e pneus, e eliminar o acúmulo. Além disso, não deixar concentrar o lixo e utilizar repelente em áreas de grande exposição a mosquitos são formas eficientes de evitar a doença.

“O primordial também é que se mantenha a questão educativa a respeito da dengue e da sua forma de transmissão na população. Para isso, precisamos retomar esses pontos que estão desmobilizados pelo poder público. Consequentemente, as pessoas vão se preocupar mais com a proliferação do mosquito”,
diz Luciana, professora da UFRJ.

Em relação a formas mais robustas de prevenção, embora o Brasil tenha uma vacina aprovada para a doença pela Anvisa – a Dengvaxia – o imunizante está disponível apenas em clínicas particulares e não oferece ampla proteção contra a doença.


“A vacina atual não funciona bem em quem nunca teve dengue, ela induz uma resposta melhor apenas para quem já teve, evitando uma reinfecção que normalmente é mais grave. Ela não chegou a ser implementada no SUS, uma decisão que eu concordo em gênero e grau. Do ponto de vista individual, algumas pessoas até poderiam se beneficiar, mas do ponto de vista coletivo da epidemiologia, não oferece muitos benefícios”,
explica Mauro Teixeira, da UFMG.

Ele destaca, no entanto, que as perspectivas são boas para que, nos próximos anos, novas ferramentas sejam incluídas no combate à dengue. Uma parte são novos imunizantes mais eficazes, como o desenvolvido pelo Instituto Butantan em parceria com o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos.

Depois de dez anos, ele está na última fase dos testes clínicos e deve ter resultados disponíveis até 2024. Nos estágios anteriores do estudo, a vacina foi capaz de induzir anticorpos contra todos os sorotipos da doença. Há ainda outro imunizante, da farmacêutica Takeda, que está em análise pela Anvisa desde o ano passado.

Além disso, uma tecnologia vem sendo testada no Brasil que envolve a inserção de uma bactéria chamada Wolbachia, presente em 60% dos insetos da natureza, no Aedes aegypti. Esse microrganismo impede que o mosquito se contamine com dengue, zika e chikungunya e consequentemente o transmita para os humanos.

“Isso faz com que as gerações que nascem daqueles mosquitos tenham também a Wolbachia, o que impede a infecção do mosquito pelas doenças. Se funcionar bem, a ideia é que seja utilizado mundialmente e vire o novo padrão ouro para combate das arboviroses”,
explica Mauro Teixeira, que coordena um amplo estudo do projeto em cidades de Minas Gerais.

A estratégia, em testes no Brasil conduzidos pela Fiocruz, foi aplicada em Niterói, cidade do Rio de Janeiro, em 2015, como parte dos estudos. No ano passado, foram publicados os resultados que apontaram redução de cerca de 70% dos casos de dengue, 60% de chikungunya e 40% de zika.

Testagem em falta

A explosão de casos da dengue acontece no momento em que diversos estados brasileiros relatam a falta de reagentes para realizar a testagem rápida nos postos de saúde. Nesta quinta-feira, por exemplo, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) cobrou a Secretaria de Saúde do DF sobre a falta de testes na rede pública. O desabastecimento foi relatado ainda por lugares como Bahia, Piauí, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Sergipe.

Procurado, o Ministério da Saúde afirmou apenas que “uma nova remessa dos insumos está prevista para ser entregue até o mês de junho” e ressaltou que os testes moleculares produzidos pela Fiocruz, responsáveis pelos diagnósticos laboratoriais, estão sendo entregues. A pasta não retornou sobre o motivo da falta de reagentes.

Luciana Costa, da UFRJ, destaca que essa realidade leva à subnotificação de casos, o que pode mascarar aumentos ainda maiores de números da doença. Além disso, dificulta a criação de políticas públicas efetivas.

“Quando não confirmamos os casos, a gente fica sem dados, ou com dados pouco confiáveis, para pensar as políticas públicas relacionadas à circulação do vírus no país. Por exemplo, se eu não tenho a confirmação dos casos de agora, eu não vou ter parâmetro para, no próximo ano, saber se eu estou vendo um surto”,
explica a especialista.

Nova cepa e sintomas

Recentemente, houve também o temor de uma piora dos casos provocada pela introdução de uma nova cepa da doença no país, depois que a linhagem chamada genótipo cosmopolita do sorotipo 2 foi identificada pela primeira vez no Brasil, em maio. Porém, especialistas reforçam que a variante já é predominante em outras partes do mundo e que não parece ter um comportamento significativamente diferente da linhagem asiático-americano, atualmente predominante no Brasil.

O vírus da dengue é dividido em quatro sorotipos, de 1 a 4. A versão atual que circula no país é uma sublinhagem do sorotipo 2. Ele é transmitido por meio da fêmea do mosquito Aedes aegypti que carrega o vetor após picar uma pessoa contaminada. A infecção provoca uma inflamação dos vasos sanguíneos que se manifesta com com febres altas, dores nos músculos, nas articulações e na cabeça, mal-estar, manchas vermelhas no corpo e enjoos.

Os sintomas costumam durar cerca de dez dias e, como não há tratamento específico para a dengue, os remédios utilizados buscam reduzir as consequências da contaminação até que o sistema imunológico consiga acabar com a infecção. A letalidade da doença não é alta mas, quando os casos estão elevados, um número significativo de mortes é provocado em consequência.

Em 2022, já foram relatados 265 óbitos e outros 300 estão em investigação – em 2021, foram 241 registros no total.

“Em geral, a notificação de casos de dengue é mais concentrada na faixa etária de adultos, que são as pessoas que acabam circulando mais. Porém, em termos de agravamento, os idosos, pessoas com comorbidades, são aquelas que têm mais risco de complicação”,
explica a coordenadora do InfoDengue.

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