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Biblioteca rural incentiva leitura entre jovens no Pará – 16/09/2022 – Seminários Folha

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Biblioteca rural incentiva leitura entre jovens no Pará - 16/09/2022 - Seminários Folha

Quem quiser ter um encontro com William Faulkner, Emicida, Carolina Maria de Jesus e Itamar Vieira Júnior em um mesmo lugar pode pegar a rodovia BR-316 rumo ao município de Castanhal, no Pará, e dobrar no ramal Boa Vista.

A estrada de terra, entre subidas e descidas, levará a comunidade rural homônima, onde os autores se encontram na biblioteca comunitária Carlos Alberto Xavier de Moraes.

O nome homenageia o filho de agricultores que, em 1978, fundou uma escola para 43 alunos na casa de família onde ele trabalhou.

Hoje, aos 66 anos e já aposentado, Carlos continua lendo para as crianças da comunidade. E isso inclui as histórias que ele mesmo escreve.

O fato do mercado editorial não conhecer a comunidade não é um problema: ele mesmo edita, publica e distribui os próprios livros, em cadernos escolares com contos escritos a mão.

Carlos também desenha a capa e as ilustrações. Durante a conversa com a reportagem, uma criança deixou uma das obras cair no rio. “É só a xerox”, diz o voluntário, que faz cópias das publicações para outras bibliotecas e casas distantes.

Os livros abordam desde monstros de água doce até visagens da floresta. Mas ele refuta a palavra a lenda. “É lenda para quem é da cidade. Aqui, é tudo real. Conto histórias que aconteceram. Algumas eu vi. Outras, ouvi da minha vó”, diz.

Criada em 2011, a biblioteca é fruto do trabalho da Vagalume, uma organização não-governamental que mantém 86 unidades em 22 municípios da Amazônia Legal com o objetivo de incentivar a leitura e a alfabetização entre as crianças da região.

Na Amazônia Legal, 31,2% dos matriculados no Ensino Médio têm idade acima da esperada para o ano que estão cursando. A taxa é de 28,1% no resto do país, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Para a voluntária Lucilene Pantoja, também professora aposentada, o projeto une a comunidade, que trabalha em conjunto e se engaja nas leituras. “A gente vai pegando gosto e vendo a importância que isso tem. O essencial não é dinheiro, e sim ver cada criança sorrindo”, afirma.

Boa parte das ações da Vagalume são feitas por meio da chamada mediação de leitura, com voluntários indo a escolas e até mesmo na casa de alunos para lerem livros. As leituras acabam virando programação da família toda e impactam até idosos não alfabetizados.

Lucilene lamenta a falta de apoio do poder público, segundo ela, por conta da comunidade ser pequena, com apenas 25 casas. Ela mora a oito quilômetros da biblioteca e conta que o transporte é uma dificuldade gigante.

“Falta escola digna, posto de saúde digno, transporte. Não temos serviços públicos. O professor tem que ser estrategista para conseguir se locomover, almoçar, dar aula”, conta.

A biblioteca funciona em uma escola municipal que atende 30 crianças e, para Lucilene, ler histórias para elas fortalece os aprendizados adquiridos em sala de aula.

São mais de 1.000 livros doados nas prateleiras, que também guardam trabalhos artesanais com palha e cipó, criados nas oficinas também promovidas por Carlos e Lucilene. O sonho agora é criar uma biblioteca flutuante, em um barco que possa chegar a todos os ribeirinhos da região.

“Que bom que as pessoas sonham. Olha o tanto de livro. Lembro-me de um ano que eu tinha três livros para trabalhar com 15 alunos. Mas nas escolas urbanas tinha livros para todo mundo. Para a escola rural, diziam que não tinha sobrado livro. Apesar das dificuldades, essa biblioteca foi um presente de Deus. Os livros são ouro para a comunidade”, diz ela.

A biblioteca também foi a salvação da comunidade durante a pandemia, segundo Lucilene. Os livros ajudaram a agrovila a superar os momentos difíceis do isolamento. “Teve gente com ansiedade, depressão. A gente nem imagina, mas essa motivação e união pela leitura faz é bem para a saúde”, afirma.

Adrian Oliveira, 17, e Nayla Monteiro, 23, foram beneficiados pelo projeto quando ainda eram crianças. Hoje, ambos são voluntários e comandam um clube de leitura juvenil. Eles começaram lendo gibis e hoje se aventuram em romances, biografias e autores amazônicos.


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“A gente sempre dizia que queria ser voluntário. Quando eu entrei no projeto não sabia ler bem. Hoje em dia minha leitura é maravilhosa, aprendi palavras que eu jamais conheceria. Nosso argumento melhora. Às vezes vem um momento de tristeza e você pega um livro e ele te traz felicidade”, diz Adrian.

Já Nayla acredita que a leitura traz uma alternativa ao mundo virtual, tão presente na vida das crianças e jovens hoje.

“Ajuda a mostrar que tem vida além do celular, além da tecnologia. As telas fazem a gente esquecer dos livros, mas estamos resistindo a isso”, diz.

Lia Jamra Tsukumo é a diretora executiva da organização e afirma que a leitura também desenvolve as competências socioemocionais dos jovens amazônidas que possuem menos acesso a livros do que em outros pontos do país.

“No contexto amazônico, a leitura de qualidade se insere como um fator determinante na formação de cidadãos globais”, diz.


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